Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 30 de março de 2017
CANTA-ARES - BRÁULIO TAVARES
Bráulio Tavares
Tamanho da letra A +A

Sagarana

Sagarana
[Bráulio Tavares]
 
Em abril de 1946 Guimarães Rosa publicou Sagarana pela Editora Universal, uma editora pequena, de vida curta, que produziu as duas primeiras edições do livro. A segunda saiu no mesmo ano (sem indicação do mês). Tenho exemplares das duas. Meu exemplar da primeira edição, com a capa (de autoria de Geraldo de Castro) bastante dilacerada, foi comprado por 1 real na calçada da Estação Carioca do metrô do Rio de Janeiro. Nela, lê-se a menção: “Do autor: MAGMA, Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, 1936 (A sair)”. Ledo engano: Magma só foi oficialmente publicado 51 anos depois, em 1997, pela Nova Fronteira. Magma também é comentado nas orelhas do livro (meu exemplar não tem a contracapa, portanto falta-lhe a 2a. orelha), com um trecho do parecer da Comissão Julgadora que lhe conferiu aquele prêmio.
 
No final destas duas edições da Ed. Universal, há um texto explicativo do autor que, pelo que me consta, foi suprimido nas edições subsequentes. Sob o título em caixa alta “RESSALVAS”, diz Rosa:
 
“SAGARANA foi escrito em 1937, na seguinte ordem: O Burrinho Pedrês; Sarapalha (Sezão); Minha Gente; A Volta do Marido Pródigo; Duelo; Conversa de Bois; Corpo Fechado; S. Marcos (Envultamento); A Hora e Vez de Augusto Matraga (A Oportunidade de Augusto Matraga). // As cantigas e os provérbios entre aspas foram ouvidos mesmo em Minas Gerais; a canção ‘De madrugada, quando a lua”, etc. ( Minha Gente) deve ser paraibana; o coro que serve de epígrafe à Conversa de Bois é uma variante deste, que figura no interessante livro ‘O GOROROBA’, de Lauro Palhano: “Lá vai!... Lá vai!... Lá vai, / -- Queremos ver. – Lá vai boi Pingo-Prata / Fazendo a Terra tremer!...” // Qualquer homonímia ou semelhança de caracteres, entre personagens e gente existente, será puro acaso e lamentável coincidência. // O Autor.”
 
Sagarana é a melhor porta de entrada para a obra rosiana. São contos longos, largos, de ritmo amplo, que criaram um novo regionalismo em nossa prosa. A paisagem convencional (mundo rural, gado, fazendas, matas, plantações, morros, rios) é vista de ângulos inusitados, é descrita por um olho sagaz e uma voz narrativa dotada de imensa informação cultural, usada de maneira fluida, descontraída, antipomposa. Mesmo quando erudito ou catalográfico, Rosa nunca é pomposo. No prefácio à décima edição, o crítico português Óscar Lopes refere-se seguidamente ao lado bem-humorado do autor: “um humor que desconhecíamos...”, “esta versatilidade viva de humor...”,  “um humor humano muito especial que nos leva a sorrir”. Não é o humor da piada, e sim o da revelação, da redescoberta de algo que não sabíamos que sabíamos.
 

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

09.02.2017 - Os romances emprestados

05.01.2017 - Como enrolar o leitor

11.12.2016 - O dia em que John Lennon morreu

28.11.2016 - Uma vez numa terra remota

06.10.2016 - Filme de ilha, de trem, de tesouro

07.09.2016 - A arte de reescrever o passado

16.08.2016 - A arte de intitular um livro

16.07.2016 - Os leitores de Edgar Wallace

30.06.2016 - Um "Divertimento" de Cortázar

14.06.2016 - 15 escritores

25.05.2016 - Os detalhes da narrativa

30.04.2016 - Viagem de Graciliano

23.04.2016 - A ida e a volta em "O burrinho pedrês"

05.04.2016 - Sagarana

18.03.2016 - Memes e gifs

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

30.03.2017 - Depois de procelosa tempestade

Depois de procelosa tempestade

29.03.2017 - CELSO FURTADO

CELSO FURTADO

28.03.2017 - A peleja entre Deus e o diabo nos sertões do Piauhy

Uma incursão à antiga Vila do Mocha

28.03.2017 - Anti-homenagem

Hoje eu anti-homenageio o Governador do Rio de Janeiro, Sr. Pezão

28.03.2017 - VOLTO AO ASSUNTO: A CRIMINALIDADE BRASILEIRA

É um truísmo

27.03.2017 - Agrônomo Francisco Parentes

O acadêmico Reginaldo Miranda reconstitui a trajetória do pioneiro da agronomia no Piauí e fundador do Estabelecimento Rural São Pedro de Alcântara.

27.03.2017 - Guardem as cinzas - Esta é a novela de Andrea Ferraz

Uma novela na linhagem das tragédias gregas e universais

23.03.2017 - Antenor Rêgo e seu dicionário de “Piauiês”

Em seu Dicionário do Piauí – a língua piauiense, de 160 páginas, estão catalogados em forma de verbetes, conforme consta na capa, o linguajar, as expressões, as sabenças, os falares, os costumes e as curiosidades de nosso povo.

22.03.2017 - AVIDEZ PELO DINHEIRO, FALTA DE ÉTICA E SOLUÇÕES VIÁVEIS PARA O BRASIL

Tudo que se fez para desmoralizar a imagem do Brasil tem uma origem comum

20.03.2017 - A PEDRO COSTA

Dizem que ninguém é insubstituível. Tal premissa terá uma chance de se provar verdadeira, a partir de agora, com a partida prematura e inesperada de Pedro Costa, em relação aos seus empreendimentos, sonhos, anseios e desejos

19.03.2017 - Poema de Heinrich Heine

poesia

18.03.2017 - Anísio Brito

O acadêmico Reginaldo Miranda traça o perfil biográfico de um professor e historiador piauiense.

18.03.2017 - José Antonio Reguffe

A mídia pouco fala desse homem de comportamento exemplar entre os políticos!

17.03.2017 - BANDEIRAS DE FERRO

Somos todos devedores dos ares que vêm de lá

16.03.2017 - A ELIZETH

Recebo um presente rico.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br