Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 29 de maio de 2017
CANTA-ARES - BRÁULIO TAVARES
Bráulio Tavares
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O dia em que John Lennon morreu

O dia em que John Lennon morreu

[Bráulio Tavares]

"Onde estava você... no dia em que John Lennon morreu?”

Eu estava de passagem pelo Recife.  Estava resolvendo detalhes da publicação do meu primeiro livro, Balada do Andarilho Ramón e Outros Textos, que graças à indicação de Cavani Rosas e à produção de Andréa Mota saiu pelas Edições Pirata (leia-se Jaci Bezerra e Alberto da Cunha Melo), com capa de Cavani. Foram duas impressões apenas, uma de 80 exemplares e outra de 300, o que faz dele uma peça de colecionador. (Eu, pelo menos, sempre que vejo um, compro. Tenho dois.)

 

Na véspera, Andréa reuniu um grupo de amigos e fomos de ônibus para Itamaracá, para ver a apresentação de um bumba-meu-boi que se estendeu noite afora. 

 

Um bumba-meu-boi, para quem não sabe, é uma espécie de peça teatral dirigida a quatro mãos por Bob Wilson e Zé Celso Martinez. Uma viagem ao Reino do Vai-e-Não-Torna. Uma sucessão de quadros em que os atores se sentem à vontade para esticar os improvisos e as brincadeiras (entre si ou com a platéia) pelo tempo que lhes der na telha. Quando vai com duas ou três horas, você se pergunta se aquilo não vai acabar nunca. Quando chega por volta das seis ou sete horas ininterruptas, você tem vontade que aquilo não acabe nunca.

 

E num certo sentido filosófico, um bumba-meu-boi não acaba nunca.

 

A gente assistia, cantava, aplaudia, dançava, tomava umas e outras, ia no terraço da casa de uns amigos para um cochilo de uma hora (dormir mesmo era impossível, o barulho é muito), voltava...

 

No dia seguinte, no fim da tarde, pegamos o ônibus de volta para o Recife. E ao chegar no famoso Beco da Fome (que ligava a Rua 7 de Setembro à Rua do Hospício), me deparo com a vida real em forma de notícia. 

 

Se bem me lembro era Samuel Costa, o “Galileu”, que estava sentado numa mesa na calçada e disse: “Oi, mataram seu ídolo e você tá aí todo tranquilo?”.

 

Eu não acreditei. Sentei na mesa do bar e pouco depois começou o Jornal Nacional. Desabei. Felicidade que também na mesa estava uma ex-namorada minha que tomou as rédeas da situação, me ajudou a assoar o nariz, me trouxe de volta ao regaço da existência, rolou um momento “won’t you pleeeease help me?...”

 

No dia seguinte fui para Campina Grande, e não preciso dizer que na casa de Rômulo Azevedo e Íris Medeiros a situação estava mais pra “Cry Baby Cry” do que pra “I Feel Fine”. E começou nessa época (durou umas duas semanas) uma enxurrada de piadas de humor negro onde a gente exorcizava o sofrimento diante da surpresa, da crueldade gratuita, do absurdo total daquele fato.

 

De meia em meia hora um de nós coçava a barba e mandava:

 

-- Pois é, velho, disse na TV que quando ele levou os tiros ele gritou: “But why?”, e o cara cantou: “ ’Cause I’m the chapman... yeeeeh, I’m the chapman...”

 

E todo mundo estourava na risada.

 

Por que isso?  Catorze anos depois, quando Ayrton Senna morreu, esse festival de gracejos dolorosos tomou o Brasil de ponta a ponta.

 

Maldo eu que é porque a piada tem várias funções terapêuticas.

 

Quando você pega a fonte central de sofrimento daquele instante e faz uma piada sobre ela, você reafirma seu poder de decidir o que é capaz de lhe derrubar ou não. Ficar de coca e cair no choro é confessar a derrota. Fazer piada com a própria desgraça é um sinal de que a briga ainda não terminou.

 

Por outro lado, o humor negro cauteriza. Por cima de uma dor-de-agressão ele chapa uma dor-de-cura muito mais dolorosa, mas originada em nós mesmos. Como se a gente dissesse: “Ah, você acha que isso aí doeu?  Apois eu tenho uma coisa aqui que dói o dobro.”  A ciência moderna me desculpe, mas eu não acredito em mertiolate que não queima.

 

E terceiro, o próprio Lennon era assim. Emotivo e ácido, sensível e cruel, menino carente e machão repressor, “Nowhere Man” e “Bad Boy”.

 

Ele tinha a coragem (que a maioria de nós, poetas, não ousa ter) de escancarar musicalmente diante do mundo inteiro suas carências, suas inseguranças, suas brutalidades, seu medo, seu machismo, sua procura às-cegas dessas duas coisas que parecem tão inconciliáveis: amor e amor-próprio.

 

Paul McCartney era um sorriso, Lennon era uma fratura exposta. Só quem ia fundo na escuta das canções e na leitura das vidas percebe como cada um trazia o outro em seu reverso. Daí, talvez, a especialíssima tensão-positiva que a parceria dos dois produziu.

 

Retomando: “Onde estava você... no dia em que John Lennon morreu?”

 

Eu estava no Recife publicando uma coletânea de poemas e canções onde, a certa altura, estão estes versos, da letra de uma música:

 

“E certa noite

a violência desce com seu punho selvagem

batendo em nossa cara e acordando a coragem

que a gente tinha, e nem sabia;

força tão funda, faca tão fria

brilhando na mão da nossa alegria;

tu me ensinaste, naquele dia,

menina,

em que eu vi nos teus olhos o Atlântico Blue”

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