Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 27 de junho de 2017
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Bráulio Tavares
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Filme de ilha, de trem, de tesouro

[Bráulio Tavares]

A criação de gêneros cinematográficos ou literários não se faz cientificamente, na mesa de reuniões de um colegiado de críticos. É o pessoal envolvido que acaba criando de forma aleatória. Diretores, jornalistas, distribuidores, produtores, espectadores. Em geral são definidos pela presença de alguns elementos estruturais ou temáticos.
 

Com o aumento da produção e principalmente da circulação de filmes, surgem os subgêneros, e estes constituem enclaves com centenas de títulos.
 

Quando eu era pequeno, a gente dizia: “Eu gosto de filme de guerra”.  Todo mundo sabe o que é filme de guerra. Nessa época a que me refiro, o que conhecíamos do gênero eram, esmagadoramente, filmes norte-americanos sobre a II Guerra Mundial.

Mas aí aparecia um e dizia: “Eu também, mas só se for filme de submarino”. E também tinha “filme de bombardeio”, como As Pontes de Toko-Ri (1954) de Mark Robson. E “filme de trem” (trens numa situação de guerra, subentende-se) como O Trem (1964) de John Frankenheimer.

Podemos, por outro lados, criar gêneros mais amplos, menos focalizados. Filmes que tenham em comum um só elemento, talvez, mas que esse elemento seja uma parte essencial da sua história, do seu enredo.

Os narratólogos pesquisam, por exemplo, variantes do “Problema dos Três Desejos”, a famosa parábola da pessoa que recebe o direito (por alguma agência sobrenatural: gênio da lâmpada, objeto encantado, feitiço, etc.) de fazer três pedidos. Esta situação quase sempre redunda na pessoa sofrendo um castigo por essa ambição de querer tudo fácil demais. Como não achar que o Three Wishes Problem possa constituir um gênero em si?
 

A ficção científica é uma jângal amazônica convidando à floração de subgêneros: a Invasão da Terra, o Primeiro Contato, a Viagem no Tempo... São dezenas, e cada um com centenas de exemplos.

Tudo pode ser um gênero, desde que haja exemplos em quantidade convincente e de semelhança indiscutível.
 

O gênero policial-detetivesco surgiu quando Edgar Allan Poe propôs, implicitamente, com alguns contos seus: por que não escrever milhares de histórias sobre crimes misteriosos e o esforço de decifrá-los?

A literatura policial é um gênero? Sim, mas eu diria que subgêneros internos como o Crime do Quarto Fechado já têm bibliografia para encher uma biblioteca inteira. São especializações de certas funções narrativas: o interesse do autor por elas as sobrepõe a todas as outras.

Podemos pensar, portanto, em gêneros definidos por um conceito apenas, deixando em plano secundário época, ambientação, caracterização de personagens, etc.
 

“Filme de Serial Killer” é um novo subgênero, que se projetou de dentro do “filme policial” de forma notável nos últimos 20 anos. Antigamente aparecia de tantos em tantos anos um título como O Estrangulador de Rillington Place ou Frenesi ou O Abominável Dr. Phibes.

Tudo mudou depois que O Silêncio dos Inocentes (1991) ganhou o chamado Big Five, os cinco prêmios principais no Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Ator e Melhor Atriz.  Todo mundo convocou uma reunião às pressas e disse: “O negócio agora é serial killer,” e pronto, ninguém aguenta mais.
 

Por exemplo, poderíamos dizer que existe de agora em diante um gênero chamado A Vingança É Um Prato Que Se Come Frio, e quantas centenas de faroestes, thrillers, tacalepau de ação e aventura, horror gótico, não se encaixariam confortavelmente nessa rubrica? Vejo nesse tumulto de vendetas sutis os rostos de Vincent Price, Robert De Niro, Marlene Dietrich, Bette Davis, Jean Gabin, Jeanne Moreau, Sissy Spacek, Conrad Veidt...
 

Podemos batizar um gênero de: Pessoa Antipática Chega a Lugar Simpático que a Transforma Em Gente Boa. Assim de cara não lembro nenhum exemplo, mas se passar seis meses assistindo a Sessão da Tarde eu trago uns trinta.
 

Há um gênero famosamente batizado e descrito por Robert Heinlein: “A Man Learns Better”, algo como “Um Cara Aprende Uma Lição Pro Resto Da Vida”. Tem tema melhor do que esse?  Pode ser FC ou espionagem, pode ser romance-mulherzinha ou horror-gráfico, pode ser faroeste ou medieval, pode ser história de amor, de dinheiro, de poder, de sexo, de droga, de rock and roll. Não importa: dentro da história, “alguém aprende uma lição pro resto da vida”.

Eu poderia pegar um filme e defini-lo como a obra mais típica de um gênero.

Vou pegar como exemplo mais à mão um filme com o recentemente falecido Gene Wilder, O Expresso de Chicago (Silver Streak, 1976) dirigido por Arthur Hiller. É uma trama policial que transcorre durante a longa viagem do trem epônimo de Los Angeles para Chicago.

Ele pertence ao gênero: Filmes Sobre Pessoas Tentando Jogar Outras(s)Pessoa(s) Para Fora de Um Trem e Conseguindo Ou Não.

Parece bobagem? O gênero inclui desde Era Uma Vez No Oeste (1968) até O Imperador do Norte (1973), desde A General (1926) com Buster Keaton até esta comédia interpretada por Gene Wilder onde durante a longa viagem cruzando a América ele se apaixona por uma passageira, presencia um crime, envolve-se numa intriga que não lhe dizia respeito, e é jogado para fora do trem não menos que três vezes.
 

Todo este papo pode parecer ocioso, mas não é. A cada década que passa os saites de cinema (e futuramente os saites de literatura farão o mesmo) se dedicam a criar subdivisões cada vez mais especializadas para atender consumidores cada vez mais específicos.
 

“Romance Adolescente Contemporâneo com Vampiros e Lobisomens” podia não ser um gênero oficial, há dez anos, mas agora é. É mais uma peneira de reter outras obras e só deixar passar as que são divisíveis por esse algoritmo.
 

Especializações desse tipo brotam no interior dos gêneros convencionais, ao sabor das opiniões dos críticos e do sucesso junto ao público. Se começarmos de fato a cruzar fórmulas desse tipo, vamos poder a certa altura dizer: “Hoje quero ver um policial urbano com história de vingança, elementos sobrenaturais, triângulo amoroso e protagonista amnésico”.  E vai haver

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