Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 26 de junho de 2017
CANTA-ARES - BRÁULIO TAVARES
Bráulio Tavares
Tamanho da letra A +A

A palavra editor

[Bráulio Tavares]
 
É uma das palavras mais ambíguas do nosso mercado literário. Aliás, não sei por que fico me referindo à literatura como um “mercado”. Mercado é a livraria! 
 
Literatura é cirurgia da alma, é fantasia compensatória, é beco sem saída, é delta de veias abertas, é som e fúria, é guerra e paz, é bobagem sem sentido, é profecia no deserto, é voyeurismo da tragédia e da farsa nas vidas alheias. 
 
“Mercado” é aquele momento em que a moça do Caixa nos ergue os olhos desamparados de quem precisa tanto daquele salário e pergunta: “Débito ou crédito?”.
 
De qualquer modo, grande parte das confusões em torno da palavra “editor” e do verbo “editar” decorrem da nossa promiscuidade com a língua inglesa e com o jargão encantatório com que os povos de língua inglesa fazem brotar dólares onde antes só existiam as coisas acima enumeradas.
 
Reconheço que a língua inglesa é muito mais clara do que a nossa, porque emprega dois termos para duas funções: o publisher e o editor. 
 
O publisher é o cara que cuida do mercado: o dono da empresa, o patrãozão, o acionista-mor, o CEO, o cara que toma as grandes decisões estratégicas, que contrata a peso de ouro os autores best-sellers que em seus romances usam expressões como “a peso de ouro”. 
 
Os editors são os caras logo abaixo dele, que cuidam do varejo, do dia a dia: que lêem e avaliam originais, dialogam com os autores ao longo das etapas da produção do livro, coordenam projeto gráfico, tradução, capa, etc. São os que cuidam da literatura.
 
(Nada impede que um publisher exerça, quando lhe interessa, funções típicas de um editor, visto que o dono da empresa é ele.)
 
Em português, tanto o publisher quanto o editor são chamados de “editor”. Quando é uma mulher, de “editora”, que é também o termo que designa a empresa publicadora de livros. Isso gera frases meio desengonçadas como:
 
- Amanhã vou na editora conversar com meu editor.
- Meu editor brigou com o editor e acha que vai ser demitido.
- Minha editora disse que a editora não pode me pagar esse adiantamento.
- Meu editor mudou de editora.
- Minha editora trocou meu editor.
 
E assim por diante.
 
Sem falar que o crescimento do mercado televisivo trouxe para nosso vocabulário cotidiano o termo “editor de filmes”, que é apenas o velho “montador” do cinema, ou seja, o cara que pega 100 horas de imagens filmadas e as transforma no filme de hora e meia que vemos na tela.
 
Essa tarefa de cortar-e-colar é chamada em português de “montagem”, no cinema, por influência da língua francesa; mas em inglês a atividade chama-se editing e o técnico-artista que a pratica é um editor, numa coincidência de termos que não tem nada a ver com o trabalho editorial do livro.
 
Não tem nada a ver, vírgula. Tem sim. Todo esse palavreado vem do latim, do verbo edere, que significa “trazer à existência, produzir”, e é formado de “ex”, prefixo que indica uma ação geradora, de dentro para fora, e “dere”, que é uma variante de “dare”, origem do nosso verbo “dar”. 
 
“Editar” exprime a mesma idéia básica de “dar à luz”, o que no sentido lato (sentido mais amplo) tanto se aplica a quem faz imprimir livros quanto a quem fornece a versão final de um filme.
 
Voltando especificamente ao trabalho do livro, a sofisticação crescente dessa indústria começou a trazer novos sentidos para os termos correlatos. 
 
O Dicionário Etimológico Online registra, no inglês, que o verbo edit (=editar) é assinalado no sentido de “publicar” em 1791; no sentido de “supervisionar para publicação”, em 1793; no sentido de “fazer revisões num manuscrito”, em 1885. Já o termo inglês editor é detectado em 1712 no sentido de “pessoa que prepara trabalhos escritos para publicação” e a partir de 1803 para a mesma função relativamente ao jornal impresso.
 
É bom notar também que a palavra “editar” acabou, no meio desse tranxinxim todo, ganhando um novo sentido, que usamos com frequência: “cortar, alterar, introduzir mudanças substanciais”.  Dizemos que o discurso de Fulano foi editado e apareceu na TV numa versão mais pacífica ou mais agressiva. Dizemos que certa imagem foi editada para remover um detalhe indesejável. Dizemos que um jornalista se demitiu porque quiseram editar a coluna dele removendo referências a tal ou tal assunto.
 
Em todos esses casos, o sentido original de “dar à luz, fazer aparecer, produzir” sofre um desvio: “editar” vira sinônimo de “interferir em”, e deriva, visivelmente, do conceito de “editar” filmes de cinema e de TV.  (Embora o exemplo literário de 1885, citado acima, já traga em si a semente dessa idéia: revisar algo para publicação, modificar, “dar uma melhoradazinha”.)
 

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

16.06.2017 - Ariano e a estética do Não Foi Bem Assim

22.05.2017 - As formas simples

24.04.2017 - Dez verdades inteiras e uma mentira parcial

17.04.2017 - A palavra editor

30.03.2017 - A arte de escrever difícil

09.02.2017 - Os romances emprestados

05.01.2017 - Como enrolar o leitor

11.12.2016 - O dia em que John Lennon morreu

28.11.2016 - Uma vez numa terra remota

06.10.2016 - Filme de ilha, de trem, de tesouro

07.09.2016 - A arte de reescrever o passado

16.08.2016 - A arte de intitular um livro

16.07.2016 - Os leitores de Edgar Wallace

30.06.2016 - Um "Divertimento" de Cortázar

14.06.2016 - 15 escritores

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

25.06.2017 - Histórias de Évora em dois bilhetes internéticos

vc me fez reviver um passado bem parecido, cheio de brincadeiras, namoricos, cachaçadas, festas, incursões aos saudosos lupanares e demais entretenimentos de nossos tempos de antanho.

25.06.2017 - A DIMENSÃO DO MAR

A DIMENSÃO DO MAR

24.06.2017 - Encontro com Sophia de Mello Breyner

Encontro com Sophia de Mello Breyner

23.06.2017 - ONDE LOCALIZAR A CRISE BRASILEIRA?

Fala-se, em toda

21.06.2017 - Uma tarde na Fazenda Não me Deixes

Uma tarde na Fazenda Não me Deixes

20.06.2017 - ROGEL SAMUEL: BREVE MANUAL DE DIDÁTICA GERAL

Por que a didática geral?

19.06.2017 - Vozes da ribanceira

O autor escreve sobre o romance Vozes da ribanceira, do acadêmico Oton Lustosa.

19.06.2017 - Psycho Pass episódio 6: Akane confronta a crueldade humana

Prosseguindo a guia de episódios do seriado de ficção científica "Psycho Pass" chegamos ao chocante sexto episódio, onde Akane enfrenta uma esquartejadora.

19.06.2017 - Lançamento em Parnaíba de Histórias de Évora e A Menina do Bico de Ouro

O SESC convida para o lançamento de Histórias de Évora e A Menina do Bico de Ouro em Parnaíba

18.06.2017 - A REGRA E AS EXCEÇÕES

Alguém, de forma

16.06.2017 - Cruzando os Mares

A Bordo de um Cargueiro

16.06.2017 - Ariano e a estética do Não Foi Bem Assim

Essas coisas são inventadas por heróis picarescos, gente que para fugir da fome tem que remar o dia todo, a vida inteira.

16.06.2017 - Livros e raparigas

Um dia destes, em conversa com a mulher de um jornalista, escritor e (grande) tradutor brasileiro, falávamos de Os Desastres de Sofia e da famosa colecção Biblioteca das Raparigas

16.06.2017 - A gênese de nossa criação literária

A base de nossa criação literária fundamenta-se, portanto, na tentativa de fundir memória, imagem e sensação.

15.06.2017 - HOJE É CORPUS CHRISTI, SIM, SENHOR

Muita gente

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br