Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 24 de abril de 2017
CANTA-ARES - BRÁULIO TAVARES
Bráulio Tavares
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A palavra editor

[Bráulio Tavares]
 
É uma das palavras mais ambíguas do nosso mercado literário. Aliás, não sei por que fico me referindo à literatura como um “mercado”. Mercado é a livraria! 
 
Literatura é cirurgia da alma, é fantasia compensatória, é beco sem saída, é delta de veias abertas, é som e fúria, é guerra e paz, é bobagem sem sentido, é profecia no deserto, é voyeurismo da tragédia e da farsa nas vidas alheias. 
 
“Mercado” é aquele momento em que a moça do Caixa nos ergue os olhos desamparados de quem precisa tanto daquele salário e pergunta: “Débito ou crédito?”.
 
De qualquer modo, grande parte das confusões em torno da palavra “editor” e do verbo “editar” decorrem da nossa promiscuidade com a língua inglesa e com o jargão encantatório com que os povos de língua inglesa fazem brotar dólares onde antes só existiam as coisas acima enumeradas.
 
Reconheço que a língua inglesa é muito mais clara do que a nossa, porque emprega dois termos para duas funções: o publisher e o editor. 
 
O publisher é o cara que cuida do mercado: o dono da empresa, o patrãozão, o acionista-mor, o CEO, o cara que toma as grandes decisões estratégicas, que contrata a peso de ouro os autores best-sellers que em seus romances usam expressões como “a peso de ouro”. 
 
Os editors são os caras logo abaixo dele, que cuidam do varejo, do dia a dia: que lêem e avaliam originais, dialogam com os autores ao longo das etapas da produção do livro, coordenam projeto gráfico, tradução, capa, etc. São os que cuidam da literatura.
 
(Nada impede que um publisher exerça, quando lhe interessa, funções típicas de um editor, visto que o dono da empresa é ele.)
 
Em português, tanto o publisher quanto o editor são chamados de “editor”. Quando é uma mulher, de “editora”, que é também o termo que designa a empresa publicadora de livros. Isso gera frases meio desengonçadas como:
 
- Amanhã vou na editora conversar com meu editor.
- Meu editor brigou com o editor e acha que vai ser demitido.
- Minha editora disse que a editora não pode me pagar esse adiantamento.
- Meu editor mudou de editora.
- Minha editora trocou meu editor.
 
E assim por diante.
 
Sem falar que o crescimento do mercado televisivo trouxe para nosso vocabulário cotidiano o termo “editor de filmes”, que é apenas o velho “montador” do cinema, ou seja, o cara que pega 100 horas de imagens filmadas e as transforma no filme de hora e meia que vemos na tela.
 
Essa tarefa de cortar-e-colar é chamada em português de “montagem”, no cinema, por influência da língua francesa; mas em inglês a atividade chama-se editing e o técnico-artista que a pratica é um editor, numa coincidência de termos que não tem nada a ver com o trabalho editorial do livro.
 
Não tem nada a ver, vírgula. Tem sim. Todo esse palavreado vem do latim, do verbo edere, que significa “trazer à existência, produzir”, e é formado de “ex”, prefixo que indica uma ação geradora, de dentro para fora, e “dere”, que é uma variante de “dare”, origem do nosso verbo “dar”. 
 
“Editar” exprime a mesma idéia básica de “dar à luz”, o que no sentido lato (sentido mais amplo) tanto se aplica a quem faz imprimir livros quanto a quem fornece a versão final de um filme.
 
Voltando especificamente ao trabalho do livro, a sofisticação crescente dessa indústria começou a trazer novos sentidos para os termos correlatos. 
 
O Dicionário Etimológico Online registra, no inglês, que o verbo edit (=editar) é assinalado no sentido de “publicar” em 1791; no sentido de “supervisionar para publicação”, em 1793; no sentido de “fazer revisões num manuscrito”, em 1885. Já o termo inglês editor é detectado em 1712 no sentido de “pessoa que prepara trabalhos escritos para publicação” e a partir de 1803 para a mesma função relativamente ao jornal impresso.
 
É bom notar também que a palavra “editar” acabou, no meio desse tranxinxim todo, ganhando um novo sentido, que usamos com frequência: “cortar, alterar, introduzir mudanças substanciais”.  Dizemos que o discurso de Fulano foi editado e apareceu na TV numa versão mais pacífica ou mais agressiva. Dizemos que certa imagem foi editada para remover um detalhe indesejável. Dizemos que um jornalista se demitiu porque quiseram editar a coluna dele removendo referências a tal ou tal assunto.
 
Em todos esses casos, o sentido original de “dar à luz, fazer aparecer, produzir” sofre um desvio: “editar” vira sinônimo de “interferir em”, e deriva, visivelmente, do conceito de “editar” filmes de cinema e de TV.  (Embora o exemplo literário de 1885, citado acima, já traga em si a semente dessa idéia: revisar algo para publicação, modificar, “dar uma melhoradazinha”.)
 

 

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Isto é citado por Laín Entralgo

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