Dilson Lages Monteiro Domingo, 14 de fevereiro de 2016
CANTA-ARES - BRÁULIO TAVARES
Bráulio Tavares
Tamanho da letra A +A

T. S. Eliot e o romance policial

T. S. Eliot e o romance policial

[Braúlio Tavares]

É um lugar comum dos estudos críticos sobre o romance policial invocar os nomes ilustres que a ele se dedicaram, que lhe deram uma importância maior do que a que lhes era atribuída pelos críticos de sua época. Nomes como W. H. Auden, Jorge Luís Borges, Vladimir Nabokov, Guimarães Rosa e muitos outros eram leitores atentos de histórias de detetive. A esta lista veio se somar T. S. Eliot. De acordo com um artigo de Paul Grimstad em The New Yorker (http://tinyurl.com/zgsssq5), a publicação de The Complete Prose of T. S. Eliot, pela Johns Hopkins University Press, recuperou um grande número de resenhas que ele publicou anonimamente no jornal The Criterion, em 1927. O sisudo poeta não apenas comenta os livros que lia, como cede à tentação de propor regras para esse tipo de literatura.

Não deixa de ser curiosa a adição do seu nome a essa lista. Eliot era o mais inglês dos norte-americanos. Essa dupla filiação espiritual e literária está presente também em grandes nomes do romance detetivesco, com Raymond Chandler e John Dickson Carr à frente, norte-americanos que viveram na Inglaterra. O fato dos ingleses verem essa literatura com respeito deve pesar. Chandler sempre se queixou de que nos EUA era visto como um simples autor de histórias de detetive, ao passo que na Inglaterra era tratado de igual para igual por romancistas de primeira linha.

Foi Eliot quem considerou The Moonstone (1868) de Wilkie Collins “o primeiro, o mais longo e o melhor romance de detetive inglês”. Para ele, “a personalidade e as motivações do criminoso deveriam ser normais”, e a história não deveria “basear-se nem em fenômenos ocultos nem em descobertas feitas por cientistas solitários”. Eliot, como a maior parte dos bons autores policiais da época, defendia o fair play, ou seja, o autor deveria indicar ao leitor as principais pistas que revelavam a identidade do criminoso e o método usado para praticar o crime. É bom lembrar que na chamada Era de Ouro do romance policial (as décadas de 1920-1930) o enorme sucesso do gênero atraiu para ele autores que não tinham o menor escrúpulo de puxar o tapete de baixo dos pés do leitor da maneira mais desavergonhada possível.

Por que tanto sucesso? Eliot dizia: “Aqueles que viveram antes da criação de termos como ‘literatura elevada’, ‘romances sensacionalistas’ e ‘ficção detetivesca’ sabem que o melodrama exerce uma perene fascinação sobre o público leitor”. Para ele, um romance policial mal sucedido era o que deixava de satisfazer duas necessidades: “o prazer puramente intelectual de Poe e a completude e abundância de vida que há em Wilkie Collins”.

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

12.02.2016 - T. S. Eliot e o romance policial

01.01.2016 - Resoluções do Ano Novo

14.12.2015 - O eu lírico

02.12.2015 - "Número Zero"

10.11.2015 - Traduzir

05.10.2015 - A última imagem

27.09.2015 - O olhar que lê

16.09.2015 - Contação de histórias

02.09.2015 - Drummond e a FC

18.07.2015 - A virada do soneto

05.06.2015 - Naquele tempo

01.05.2015 - Uns títulos

09.04.2015 - Conrad Veidt

22.03.2015 - Coco cheio de sangue

10.03.2015 - Racismo e literatura

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

13.02.2016 - Pesquisadora dos Arcanos

Revendo minha primeira heroína de histórias lovecraftianas...

13.02.2016 - A Bíblia segundo o Budismo

Vivências Bíblicas e Búdicas via Estudos Literários.

13.02.2016 - AS BICAS AQUANINDÉ E O VEXAME DO TREMEMBÉ

Em minha fala, justifiquei a homenagem, ao enaltecer a admiração que ele tinha pela localidade e por seu esforço em tentar conseguir-lhe algum benefício e melhoria.

13.02.2016 - José Martí

José Martí

12.02.2016 - Razões da escrita literária

Você alguma vez já

12.02.2016 - AS AMAZONAS

AS AMAZONAS

12.02.2016 - O que é um homem?

Platão disse que o homem é o bípede sem penas.

12.02.2016 - Domínio público

Trabalhei numa editora que, até à minha entrada, se dedicara exclusivamente a realizar colecções de livros para serem vendidas ou oferecidas com jornais

12.02.2016 - T. S. Eliot e o romance policial

É um lugar comum dos estudos críticos sobre o romance policial invocar os nomes ilustres que a ele se dedicaram.

12.02.2016 - Lítero-musical, infanto-juvenil e espaço-temporal

Eis uma boa discussão para quem gosta dos detalhes da língua portuguesa.

10.02.2016 - João Zorro

Barcas novas mandei fazer

08.02.2016 - (IR)REAL

Eu busco as mais loucas sinestesias em minha mente alucinada

08.02.2016 - Feliz Ano Novo Asiático-Budista

Diz a Lenda que o Senhor Buddha fez uma festa na floresta, os 12 primeiros animais que chegaram, cada um recebeu de presente, um signo do Zodíaco.

07.02.2016 - CARNAVAL

CARNAVAL

07.02.2016 - A casa do medo

Uma sinistra visão de como poderão ser as casas do futuro, pelo andar da carruagem...

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br