Dilson Lages Monteiro Sábado, 01 de novembro de 2014
CANTA-ARES - BRÁULIO TAVARES
Bráulio Tavares
Tamanho da letra A +A

As vozes de Dickens

As vozes de Dickens

[Bráulio Tavares]

Um inquietante artigo de Peter Garratt no The Guardian examina a literatura e a vida de Charles Dickens em função do que poderíamos chamar “a arte de ouvir vozes”.  A tese do autor, bastante plausível, é de que Dickens era um desses escritores que praticamente “recebem os espíritos” dos personagens.  Criando os seus romances, improvisava longos diálogos que depois eram passados para o papel.  Diz Garratt que entre 1853 e sua morte em 1870 Dickens realizou 470 performances públicas, que devemos entender como conferências e leituras dos próprios livros com alto grau de teatralidade.  Parece que Dickens eram bom nisso, porque viajou pela Europa e América fazendo essas dramatizações.

Ele cita um testemunho do próprio Dickens sobre o ato da criação literária: “Quando me sento para trabalhar num livro, algum poder benfazejo me mostra aquilo tudo, e atiça meu interesse, e eu não invento nada, não mesmo, eu somente vejo, e passo para o papel.”  Segundo ele, Dickens era interessado em mesmerismo, ilusões e alucinações. (Coisa que, uma geração depois, iria interessar autores como Doyle, Wells, etc.)  Ele provavelmente era um steampunk “avant la lettre”, mas devia ter um certo desdém pela tecnologia.  Seus garotos encardidos, maltratados nos orfanatos, perseguidos nos becos, fugindo de todos, prefiguram essa literatura dos marginais contemporâneos, só que uns marginais num mundo mais Julio Verne do que o dele.

Diz Garratt que “a experiência literária tem muito a ver com a experiência de escutar a conversa alheia.  Ler ficção é um processo de permitir que as vozes dos personagens soem em nosso ouvido interno, e de absorver os sons que produzem.”  Na minha experiência, foi Coelho Neto (Velhos & Novos) o primeiro autor que vi descrever um fenômeno que para mim era óbvio: o fato de que qualquer palavra que lemos vai sendo lida em voz alta por uma voz interior muito semelhante à nossa.  Não diria que é um fenômeno do ouvido (meus tímpanos não ouvem nada), mas do pensamento puro: pensar em palavras é imaginar seu som.

Dickens devia ser um daqueles autores que depois fizeram a fortuna das estenógrafas e dos vendedores de ditafones.  Nem sempre o autor que dita seus livros o faz com arroubos de entusiasmo.  Erle Stanley Gardner, cartesianíssimo autor, nunca perdia de vista a história nem os personagens.  Chandler, Edgar Wallace, todos ditavam para uma máquina tanto quanto Walter Scott ditava para um secretário.  Dickens não pensava em voz alta, provavelmente: tornava-se cada personagem, como num palco só dele. Quem cria assim precisa de alguém que registre.  É uma espécie de mediunidade fingida, para efeito de criação.

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

10.10.2014 - As vozes de Dickens

21.09.2014 - Tempos interessantes

11.09.2014 - Guy de Maupassant

13.08.2014 - Um autor novo

03.08.2014 - Escrever para crianças

05.07.2014 - Literatura e biografia

27.06.2014 - Mistério do futebol

25.06.2014 - Ser soldado

19.06.2014 - De onde vêm as ideias

06.06.2014 - "Histórias da VelhaTotônia"

29.05.2014 - "Quarenta dias"

07.05.2014 - O nome do celular

21.04.2014 - Bilac e o Brasil

08.04.2014 - José Wilker

28.03.2014 - 1984 de Orwell

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

São Bernardo no olhar de Ricardo Ramos Filho


(Dê)pois, poema de Dílson Lages


Listar todos
Últimas matérias

31.10.2014 - Cinema Digital

Artigo de Pedro Butcher

30.10.2014 - Aviso aos leitores

Prezados leitores

28.10.2014 - Depois das eleições...

Será, leitor,

26.10.2014 - Robert Bergin e o Apocalipse

Um grito de alerta sobre a situação mundial que já estamos vivendo e o que vem por aí

25.10.2014 - Tudo pelo poder

Escolha entre os que se dizem os piores

25.10.2014 - Sobre o poeta Elmar Carvalho

Caro leitor, saindo

24.10.2014 - POESIA ARGENTINA

POESIA ARGENTINA

24.10.2014 - A única saída: prisão perpétua já!

Por vezes, penso com os meus botões

24.10.2014 - A única saída: prisão perpétua já!

Por vezes, penso com os meus botões

23.10.2014 - A guerra através do tempo

Apresento a resenha do volume 4 do clássico mangá Sailor Moon

23.10.2014 - ENFIM, A APOSENTADORIA

Mas eu próprio resolvi o aparente paradoxo da equação, ao dizer que quem era bom era justo, e quem era justo necessariamente teria que ser bom.

23.10.2014 - Solenidade marca hoje os 36 anos de fundação da ALVAL

Solenidade marca hoje os 36 anos de fundação da ALVAL

20.10.2014 - O Amigo da Onça

Precisamos fazer o resgate de tantas criações do imaginário nacional.

19.10.2014 - As urnas dividiram o povo brasileiro e dizimaram o sentido da alteridade

A premiada escritora An a Maria Machado

19.10.2014 - A QUESTÃO FUNDAMENTAL DA METAFÍSICA

A QUESTÃO FUNDAMENTAL DA METAFÍSICA

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br