Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 30 de julho de 2010
NEUZA MACHADO - LETRAS  
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6.5 - O NARRADOR DE A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA: DEPOIS DA QUEDA

 

 

6.5 - O NARRADOR DE A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA: DEPOIS DA QUEDA

 

NEUZA MACHADO

 

 

Depois da queda, a “ressurreição” do personagem. As imposições do meio social mudaram? Não. Mudou a estratégia de vida do personagem, mudou a estratégia de narrativa, mas estas ainda se encontram no plano da diegese e da classe social.

 

A “ressurreição” de Nhô Augusto, enquanto personagem sintagmático, representa a ressurreição da força do personagem ficcional, enquanto agente das diretrizes da narrativa. Os dois planos, histórico-substancial e mítico-substancial, nas duas primeiras sequências, ainda são percebidos. Deus ainda está distanciado, mas já está em vias de se aproximar. Basta que o personagem se arrependa e modifique seu comportamento.

 

O narrador observa agora um outro aspecto do sertão: o místico (segunda sequência). Ele analisa seu próprio interior místico, herdeiro da eticidade religiosa do povo sertanejo.

 

Se Nhô Augusto, influenciado pelo Padre, se resolve a viver santamente, esperando sua hora e vez de entrar no céu, o narrador eticamente tem consciência da impossibilidade de tal atitude. É a culpa burguesa. Para redimi-lo e redimir-se, resta-lhe tentar a recuperação dos poderes do personagem por intermédio da religiosidade. Por enquanto, Nhô Augusto continua um vencedor. O narrador sonha um mundo perfeito, onde a comum-unidade social esteja resguardada pelos dogmas religiosos e políticos. Deus já passa a fazer parte do universo e o Céu se confunde com os rituais pagãos.

 

Até o final da segunda sequência da narrativa, o narrador se coloca distanciado da matéria enfocada. Narra o arrependimento e a conversão do personagem; caracteriza o sertão como espaço mítico e místico; é porta-voz das duas dimensões substanciais que estruturam a História do Mundo: social e religiosa; enfim, observa as etapas existenciais do Homem através de seu personagem, e observa também suas próprias etapas existenciais.

 

Na segunda sequência, diegética, o personagem se torna um excêntrico, desenvolvendo o poder carismático-religioso que lhe fora legado pela avó beata. Com isto, o personagem se impõe novamente como “herói”, e a narrativa recomeça por meio dos mesmos recursos de seu início. O tom de oralidade continuaria, se o conflito íntimo do narrador não se manifestasse por meio de um personagem providencial: o Tião da Thereza.

 

Antes, o alerta sobre a mudança no discurso narrativo.

 

“E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma história inventada, e não é um caso acontecido, não senhor” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).

 

Pela primeira vez, o narrador de Guimarães Rosa externa a sua opinião a respeito da matéria narrada. Se antes não tinha acesso à interioridade do personagem (na primeira sequência da narrativa), agora começa a penetrar em sua intimidade, alterando seus conceitos de vida.

 

MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6

 

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