Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
CACHETE
Gisleno Feitosa
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TIRO E QUEDA

[Gisleno Feitosa]

Maricota era mulher parideira, daquelas pra homem nenhum botar defeito. Foram quatorze barrigadas; dez vingaram, quatro Deus levou antes do tempo. Tudo parto feito a facão pelas melhores aparadeiras, comadres experientes e interessadas, mas sem recursos para evitar as seqüelas decorrentes de gestações mal conduzidas, sem pré-natal, algumas de risco.

Quatorze estava mais do que bom. Afinal, fizera uma escadinha: todo ano era um bruguelo, como sem falta. Agora, época de eleição, certamente conseguiria, com algum político local, a tão esperada ligadura de tropas e, de quebra, o períneo, pois era de família abastada de votos e sempre tem um abestado que acredita que tal procedimento renda benefícios na boca da urna.

Dito e feito, ligeirinho, estava de volta ao lar doce lar, desligada (porque na cabeça de Maricota, ligada ela estava era antes, quando bastava uma salienciazinha pra emprenhar) e de períneo novo, quase virgem, como dissera o doutor especialista da capital e coincidentemente irmão de um dos candidatos.

O diabo era a sonda – aquela tripa dependurada – que ela tinha de carregar pra cima e pra baixo, pois não conseguia urinar sem a danada. Bem que a comadre Bertulina tinha avisado. Era remédio e mais remédio. Mas quando tirava a sonda, era um Deus nos acuda; tapava tudo. Tinha um mistério a mais: não saía nada, nem pela frente nem por trás. Maricota ficava empachada e com a bexiga em via de estourar. Nem votar a infeliz pôde ir. Não votou ninguém da família, a bem da verdade. Pense num sofrimento desgramado!

O doutor especialista da capital já estava sem graça, coitado!

Foi quando saiu o resultado da eleição: o concorrente que era mais sabido (“veaco” para os analistas locais) tinha distribuído previamente dentaduras, óculos, esquifes e fundos de redes, embolsou o irmão do doutor especialista com facilidade.

Era ronco de porca pra todo lado que, junto ao buzinaço estridente e ao infernal foguetório, produzia um farnesim na cabeça de Maricota. Estava pra correr doida de dor e de impaciência, quando um gaiato resolveu soltar um foguete, daqueles que estremecem o chão e quebra vidro à distância, bem junto à janela da moribunda Maricota. Foi tiro e queda, literalmente.

Na hora do pipoco, a doente estatelou-se no chão, já sem a sonda. Mas destampou tudo. Foi uma cachoeira e uma fedentina só. Estava resolvido o problema.

Avisado, o doutor pôde retornar à capital, triste pelo insucesso do inexperiente irmão, mas de alma lavada pelo sucesso da sua primeira cirurgia.

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