Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
BRASIL QUE LÊ
Galeno Amorim
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O vendedor de livros

[Galeno Amorim]

Aonde vai, afinal, esse homem com tantos livros debaixo do braço?! E são uns livraços, desses que parecem pesar mais do que tijolos… Olhando bem, dá pra ver que são... enciclopédias. Um par delas!

O homem vai e bate de porta em porta. Toca a campainha em algumas das casas. Dentro delas, raros são os que fazem ideia do que vai no interior dos tais livrões: são verbetes variados, personagens ilustres e a própria história da humanidade.

Circunspecto e gestos largos, o homens dos livros busca convencer donas de casa ou seja quem der o azar (ou a sorte?!) de atender à porta, todos eles fregueses em potencial. Ele quer porque quer que elas saibam que o conteúdo daquelas e de tantas outras obras que há por aí pode, de verdade, salvar a vida delas e de seus filhos. E no mínimo, livrar a todos nós da santa ignorância.

Vender livros de porta em porta tornou-se, de hora pra outra, o ganha-pão do Seu Luciano. Até bem pouco tempo atrás ele era um homem importante, daqueles que estava sempre nos jornais. Ora escrevendo, ora como notícia.

Jornalista de retórica envolvente e um senso ético incomum, ele fora vereador, depois duas vezes deputado. Como não era dado à arte de pedir votos, eram seus amigos e admiradores que faziam isso por ele. Todos eles enfeitiçados por sua pureza e intransigência de caráter, além de uma clareza política rara.

Foi nos livros que ele aprendeu quase tudo que sabia na vida. Filho de italianos pobres que migraram da Calábria, Luciano sempre leu muito. Sobre política, proletariado e tudo mais que aparecesse na sua frente. Traduzia isso em inflamados discursos, feitos sobre caixotes de madeira, que eram verdadeiras aulas sobre política internacional.

Foi assim que cativou uma legião de admiradores. E era assim que se elegia, num tempo em que não havia cabo eleitoral pago ou campanhas milionárias. Tudo no gogó, no olho no olho.

Mas no meio do seu caminho houve um 1964. Ele foi cassado na primeira leva. Também ficou proibido de escrever em jornais. Chegaram a propor um daqueles empregos arrumados, mas, incorruptível, ele não aceitou. Preferia vender livros, que, como dizia, é o mais digno dos trabalhos. 

Também era seu jeito de jogar um pouco de luz na vida das pessoas e ajudar a espantar toda aquela escuridão.

Mas o homem não durou muito tempo naquele emprego. Por uma razão simples: em vez de vender os livros, ele acabava por dá-los de presente cada vez que encontrava um freguês sem dinheiro para comprá-los.

Só anos depois, já com a derrocada da ditadura militar, Luciano Lepera, comunista convicto, voltaria às redações de jornais. Foi um mestre pra muita gente. Tão generoso quanto teimoso, ele era capaz de, literalmente, tirar a roupa do próprio corpo para dar a alguém que precisasse mais do que ele.

Ele se foi dessa vida tal qual veio: sem nada. Antes de morrer, doou o pouco que tinha. Mas o vendedor que dava livros deixou uma história e uma trajetória de vida incomum, materializada em torno da palavra, nos livros, nos jornais e nas tribunas. É dessas pessoas de quem jamais se esquece, dado seu inexplicável poder de tocar profundamente quem quer que passe por seu caminho.

Embora ateu, era mais cristão do que a maioria deles. Por isso, dele diziam que nem precisava acreditar em Deus. Porque Deus já acreditava nele...

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