Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
BRASIL QUE LÊ
Galeno Amorim
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O presente da professora

[Galeno Amorim]

Antônio era um garoto como qualquer outro. Estudava na mesma escola pública que os demais meninos e meninas da cidade e não tinha a menor ideia do que faria quando crescesse. 

Esperto como era, talvez arrumasse emprego em escritório. Ou virasse operário em alguma fábrica ou usina de açúcar, como boa parte da gente do lugar. Eram, é certo, empregos dignos e cobiçados pelos moços da pequena Matão de meio século atrás. Só que Antônio queria mais. Queria algo diferente. 

Um dia, já no final do segundo ano do grupo, aconteceu. No ano anterior, ele se engraçara com uma professorinha. Também pudera: em vez de giz ou quadro negro, ela fazia era cantar. Cantar, sim. Cantava cada palavra e as frases que pretendia ensinar. Assim, encantava a meninada. 

Agora, entretanto, o caso era mais sério. As artes da sedução inventadas por aquela outra mulher eram simplesmente arrebatadoras. E Antônio, ingênuo que era, se deixara levar. O infalível plano de Dona Albina era genuinamente terrível. Separava parte do salário e comprava um livro para cada aluno. Depois, no último dia de aula do ano, fazia a surpresa para a classe. 

Antônio, naturalmente, ganhara o seu. Era A Galinha dos Ovos de Ouro, disso jamais se esqueceria. Como também do seu cheiro, da textura, da história... Ele era só mais um. Mas, sentiu-se importante, diferenciado, único. E, desde então, passou a interessar-se por livros.

Já não saía da biblioteca e passou a escrever compulsivamente. Descobriu que adorava as narrativas e, aos poucos, se encantava definitivamente com a língua. Logo já faturava uns trocados dando aulas de português para candidatos à velha Admissão ao ginásio. Até que um belo dia surgiu na sua frente mais um daqueles professores. 

Por trás da elegância no falar e dos ternos impecáveis que jamais se repetiam, se escondia, de novo, uma implacável arma de seduzir jovens incautos como ele. Sua fama era conhecida no colégio. 

Logo no primeiro dia, o homem fez a provocação. Tirou o relógio do bolso num gesto quase teatral e desafiou: 

- Vou esquecer o relógio... Quero que alguém venha aqui na frente e fale qualquer coisa. Declame um poema, conte uma história... 

Fez-se um silêncio sepulcral. Antônio, por fim, tomou coragem e foi. Respirou fundo, puxou pela memória. E contou, sem qualquer pudor, aquela mesma história da galinha dos ovos de ouro que sabia de cor. Segundos terrivelmente longos depois, vieram os aplausos. Havia sido um sucesso. Depois disso, desembestou de vez. Foi fazer teatro na escola e virou crooner de uma bandinha de rock. 

Jamais deixaria de ler, escrever e falar. Antônio não suspeitava, mas nascera ali, na magia daquele instante, um professor, um homem da comunicação. Anos e anos depois, o hoje professor de cursinho e apresentador de rádio e televisão de sucesso Antônio Cassoni recorda-se daquilo com emoção. E do papel que os livros e mestres tão decididos tiveram em sua vida. 

- Graças à leitura, defini minha profissão - diz, advertindo que ler, entretanto, é fundamental para todas elas. No seu caso, foi também o que deu sentido e objetivo à vida.

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