Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
BRASIL QUE LÊ
Galeno Amorim
Tamanho da letra A +A

O contador de histórias

[Galeno Amorim]

Nunca se soube se ele sabia ler e escrever. Ou de onde viera e se tinha família. Sobre seu passado mesmo, não dizia uma só palavra. O certo é que era um homem de bem. Mais que isso: em sua simplicidade, era um filósofo de verdade. E contava histórias como ninguém... 

O velho Francisco dominava algumas artes. Uma delas era a arte de brincar com as palavras. Não as escritas, mas as faladas. Ele burilava com elas. E dava vida e certo sentido a cada uma delas. A outra era dar uma nova vida às coisas. Era o que fazia com as latas velhas, que chegavam aos montes à Casa de Saúde Allan Kardec. Era lá onde ele vivia, por obra e graça da caridade alheia. 

Com paciência e sabedoria dos velhos, ele que descendia de negros escravos tirava delas todo tipo de excesso. Limava-as com esmero - como fazia com as palavras. Com cuidado, preparava-lhe as bordas, que era pra ninguém se ferir quando as levasse aos lábios - como, enfim, fazia com as palavras. 

Por fim, untava um cabo de madeira, dando, finalmente, a elas, agora transformadas em canecas, uma surpreendente utilidade. E um sentido novo. 

Seu Chico fazia uma e outra coisa ao mesmo tempo. Com gosto. E a mesma alegria e obstinação. Como uma doce tarefa de vida. Tal era seu talento que, ao cabo de instantes, já havia operado o milagre moderno de transformar pequenos e acanhados ouvintes em futuros leitores. Mas disso, ele sequer desconfiava. Porque fazia o que fazia com naturalidade. Afinal, ele próprio crescera ouvindo causos de seus antepassados. E gostava, verdadeiramente, daquelas histórias de antanho. 

Outro que se divertia, deixando-se levar pelo doce trinado das palavras, era um menino também de nome Francisco. Ouvia atentamente as histórias e, sentado onde estava, fazia suas próprias e inacreditáveis viagens. 

A medida em que crescia, foi tomando gosto por outras coisas. Primeiro, pelas fitas do velho cinema em preto e branco. Mais tarde, descobriria a música e, de novo, as histórias - desta feita, dos livros. 

Francisco, o menino, acabaria por se encantar com Monteiro Lobato. Depois, um a um, os autores foram entrando em sua vida. Machado de Assis, Guimarães Rosa e um punhado deles. Aos poucos, descobriu que ele próprio também tinha o poder de criar seu próprio mundo. E de dar vida a personagens fabulosos que saiam, despudoradamente, de dentro das páginas. E uma extraordinária capacidade de dar asas à imaginação, de redescobrir o mundo e de sonhar. 

O menino cresceu, virou Francisco Sérgio e foi pra faculdade. Foi ser advogado, auditor fiscal, delegado da Receita e, por fim, secretário da Fazenda de Ribeirão Preto. Até hoje, no entanto, o doutor Nalini não se esquece das boas histórias que embalaram sua infância. E que fizeram dele bem mais do que um leitor de livros. O velho contador de histórias de Franca (SP) - onde ele morava - acabaria por fazer dele um leitor de mundo. De política, de economia, de pessoas...

Ao despertar nele a capacidade de inventar e encontrar suas próprias respostas, o homem o presenteava, no fundo, com muito mais do que um mero entretenimento. Estava a prepará-lo para a vida.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

16.03.2012 - Um leitor de mundo

09.03.2012 - Ele é o cara!

24.02.2012 - Gente como a gente

10.02.2012 - O contador de histórias

03.02.2012 - O presente da professora

06.01.2012 - No mar profundo... dos livros

16.12.2011 - O vendedor de livros

02.12.2011 - Bordadeira de palavras

18.11.2011 - A magia das palavras

11.11.2011 - O livro dos livros

29.10.2011 - Mães que amam e também leem

21.10.2011 - Eles sabem disfarçar

16.10.2011 - O contador de histórias

05.10.2011 - Morador de rua e leitor

26.08.2011 - Amyr e o mar

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online
Últimas matérias

17.05.2012 - O VELHO CHALÉ DE JOSÉ DE FREITAS (PARTE 1)

..............................................................................................

17.05.2012 - Algumas faculdades europeias e estadunidenses de Jornalismo

Na Europa, uma excelente faculdade de Jornalismo foi construída pela Universidade Autônoma de Madri, conveniada com o jornal espanhol El País

17.05.2012 - NANA, um tratado sobre as relações humanas

Uma complexa e extensa novela gráfica japonesa

17.05.2012 - Terra do Gado

A história e as histórias que reuniu e redimensionou são, ao tempo em que lançam novas luzes sobre a identidade do Piauí, principalmente, um reflexo do ideal de projetar entendimento mais preciso das marcas da “piauiensidade”

17.05.2012 - Uma luta de Sísifo

Durante boa parte do meu temo

16.05.2012 - A CRIATURA - PARTE 2

De olhos bem abertos ela fitava o teto. Imagens dispersas deslizavam umas sobre as outras, enroscando-se numa massa caótica de energia desperdiçada. Os ponteiros do relógio, alheios ao seu sofrimento, moviam-se silenciosamente.

16.05.2012 - Família lança livro inédito do desembargador e contista Magalhães da Costa

Família lança livro inédito do desembargador e contista Magalhães da Costa

15.05.2012 - No país das CPIs

Tempos atrás já houve

15.05.2012 - A mulher vital

A história da Narrativa (cinema, literatura, etc.) é cheia de arquétipos e estereótipos

15.05.2012 - Inobstante, face a, frente a e outras locuções

Por sugestão de M. P. Kern, de Pinhalzinho/SC, vamos tratar hoje do “uso de face a e inobstante, expressões muito usadas no meio jurídico”. O pedido sem dúvida decorre do fato de algumas pessoas condenarem a locução face a

15.05.2012 - O melhor trecho do novo livro de Rogel Samuel

A escolha de um trecho melhor é idiossincrática - e por isso irrelevante -, mas o novo ensaio rogeliano é crítico-filosófico - e ultrapassa a mera crítica literária

14.05.2012 - Vi uma coisa medonha no céu

Mergulhemos um pouco no mundo sombrio e tenebroso criado por H.P. Lovecraft: os horrores do Necronomicon

14.05.2012 - Abril de 2012: UNESCO anuncia proteção aos destroços do Titanic

Em águas internacionais, a 4.000 m de profundidade, nenhum país pode reivindicar a jurisdição exclusiva do local

13.05.2012 - Tradução de um texto de Raymonde Norman*

Sobre minha fronte

13.05.2012 - Três fábulas de La Fontaine

(1) O leão e o rato; (2) A raposa e a cegonha; e (3) O lobo e o cordeiro

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br