Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
BRASIL QUE LÊ
Galeno Amorim
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Ler para o outro é um ato de amor

[Galeno Amorim]

Há muito mais gente do que se pensa que anda saindo por aí atrás de uma oportunidade para trabalhar... de graça. São aposentados, pessoas que nunca trabalharam fora e outros, ainda, que, embora tenham um emprego fixo, ainda arrumam tempo para fazer algum tipo de trabalho voluntário.

É certo que se verá por toda parte muito mais gente caridosa que está a ajudar a matar a fome do próximo, ou a recolher donativos ou, ainda, a fazer algum trabalho manual. Costureiras, cabelereiros, cozinheiros, instrutores de informática, pedreiros etc. – tem de tudo e espaço é o que não falta para praticar qualquer tipo de boa ação, desde que se queira.

Mas Tânia Alves Afonso enveredou-se por outro caminho. Ouviu que podia doar algo de que gostasse muito e que não lhe fizesse falta. Pronto! Como ela gosta muito de ler, descobriu seu próprio jeito de fazer o bem sem olhar a quem: alistou-se como contadora de histórias.

Passou a atuar no Hospital das Clínicas, onde tudo acontece.Toda semana ela dedica um período do seu dia para ler livros infantis para crianças com câncer que vivem no local. É o caso, por exemplo, do curumim Pedro de Oliveira, um indiozinho da tribo Xacriabá, de São João das Missões (MG), que há anos luta contra a doença. Entre uma e outra quimioterapia, a meninada deixa se embalar pelas fábulas de Rapunzel, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho... e quem mais chegar.

Já as mulheres da Igreja Presbiteriana, com a médica Silvia Pelegrino à frente, preferem ler para os moradores do Lar dos Velhos, uma casa que abriga idosos pobres na periferia de Ribeirão Preto (SP). Uma vez por semana, essas donas de casa, empregadas de lojas ou escritórios e trabalhadoras da saúde largam tudo que estão fazendo em troca de minutos de puro deleite. Elas fazem do prazer de ler sua profissão de fé.

- Ler faz bem pra saúde - diagnostica a doutora, que tem constatado melhoras extraordinárias, seja na percepção visual, emocional, seja no campo neurológico.

Já Shirley chegou a se matricular num curso de contadores de histórias do Centro do Voluntariado. Só para caprichar mais seu desempenho. Desde então, ela vai, toda semana, ler para jovens e adolescentes internados no Hospital Santa Lídia. Muitos deles jamais tiveram contato com um livro antes. De repente, estão vivendo experiências fascinantes.

Gente como Tânia, Silvia, Shirley, e tantas outras por aí, em geral não se dá conta do bem que está fazendo. Mas, com um gesto simples, que nem custa nada, ajudam a promover pequenas e grandes transformações nas pessoas. Verdadeiras revoluções íntimas. Só pensam em passar adiante o muito que a vida lhes deu. Não esperam nada em troca.

Sem que também percebam, acabam recebendo de volta, e até mais, o que generosamente doam. É uma onda poderosa de amor, de gratidão, de respeito. Com um gesto muito simples!

Ler para si próprio é, sem dúvida, uma atitude de autoestima e cidadania. Porém, ler para o outro é muito mais que isso: é um ato de amor.
 

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