Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 25 de maio de 2017
BRASIL INSÓLITO -- RENATO BARROS DE CASTRO
Renato Barros de Castro
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O começo do mundo e as sete cidades de pedra

O começo do mundo e as sete cidades de pedra

Pouco antes da entrada de Perypery (grafia antiga da cidade hoje chamada Piripiri, no Piauí), deixa-se o asfalto para tomar uma estrada de terra que conduzirá à entrada do Parque Nacional de Sete Cidades, numa área inóspita de densa vegetação onde se destacam faveiras e, aqui e ali, sossegados córregos indiferentes ao azul profundo do céu ou ao vigor da luz natural.

É deveras insólita a paisagem, com suas estradas de terra vermelha e curiosas formações rochosas, como uma esfinge de pedra ao longe, guardando minhas pedaladas iniciais na bicicleta, na tentativa de acompanhar a guia, sempre bem mais adiante.

Estas sete cidades de pedra, com sua aparência de ruínas de civilização desaparecida, remetem o tempo todo a culturas antigas, não apenas ao homem pré-histórico que deixou nas cavernas as marcas de suas mãos, enigmáticos calendários e desenhos ritualísticos, mas quase às próprias origens do mundo dito civilizado: diante de nós, sobre um promontório rochoso, um Baal domina a paisagem com toda a altivez de um bezerro de ouro inconsciente de sua inapelável destruição.

Depois de um banho na Cacimba dos Milagres (assim chamada por jamais ter secado), a viagem prossegue em meio a muitas exclamações. Em toda essa área, a erosão provocada pelas intempéries modelou pitorescamente as rochas (que já integraram o fundo do mar), configurando ruas, casas e monumentos imaginários a aguçar nossa curiosidade diante desse processo geológico de cerca de 190 milhões de anos. 

De acordo com o (imaginativo) historiador austríaco Ludwig Schwennhagen, o conjunto de Sete Cidades nada mais é do que as ruínas de uma antiga cidade fenícia, construída há 3 mil anos: os monumentos naturais (como o Arco do Triunfo, em arenito, de 18 metros de altura), as “ruas” e as “casas” em formatos variados não são senão os vestígios além-mar da famosa civilização desaparecida.

De qualquer modo, as formações rochosas de Sete Cidades são as mais intrigantes, e cada visitante decide o que bem vê nelas, malgrado as indicações já definidas nas placas: um dragão chinês, uma tartaruga, a cabeça de D. Pedro I (para mim trata-se de D. João VI), mapas reais e imaginários, os três reis magos e o furo solsticial, por onde a luz solar se encaixa exatamente no dia que marca a chegada do solstício.

Percorrendo passarelas que remetem a filmes de aventura à la Indiana Jones, chega-se a vários sítios arqueológicos com pinturas rupestres. Desenhos geométricos são a marca local, mas ali também se encontram representações do sol, da lua, de morcegos ou centopeias, formato de mãos humanas (uma delas com seis dedos), trilhas imaginárias semelhantes a digitais, além de uma curiosa inscrição que, segundo o escritor suíço Erich Von Däniken em seu livro Eram os deuses astronautas?, trata-se da reprodução da cadeia de DNA humano.

Qualquer um pode chegar a essa conclusão observando as pinturas, mas o autor provoca uma reflexão que leva bem mais além: para ele, a sabedoria dos homens da pré-história estava imbuída de seu contato com seres extraterrenos. Polêmicas à parte, é intrigante entrar nesse universo sobrenatural pelo pensamento de Däniken, que nos guiará por afrescos em igrejas medievais búlgaras onde se desenham foguetes ou reis maias pilotando espaçonaves.

O maior mistério de Sete Cidades, entretanto, está ligado a uma pintura já meio desbotada que, quase à unanimidade, será definida como um avião ou, no mínimo, uma nave espacial. “Se essa foi uma invenção do século XX, como o homem das cavernas poderia ter visto tal coisa nos céus?”, o viajante se perguntará, e Däniken tem a resposta, independentemente se aceitável ou não...

Em um documentário sobre sua obra, mostra-se o curioso efeito da passagem de um avião, já agora em nossa época, por uma tribo primitiva no Pacífico Sul. O evento ocasionou a criação de um totem, ao redor do qual os índios passaram a rezar e a esperar o retorno da nave, visto tratar-se de algo exterior ao seu conhecimento e de qualquer explicação plausível, isto é, algo divino. Esse fato, por sua vez, seria uma das chaves para desvendar os mistérios defendidos há milênios pelas esfinges de pedra, mesmo as que guardam, mudas, todo o fascínio que as Sete Cidades sugerem ao viajante.

(Trecho retirado da crônica “José no Egito”, do livro "Geografia Afetiva" - Prêmio Milton Dias 2011 -, de Renato Barros de Castro)
 

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