Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
ANEXOS DA REALIDADE
Miguel Carqueija
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Os que perderam o ônibus

 Uma homenagem ao filme MIB, de Steven Spielberg.                                               

 

OS QUE PERDERAM O ÔNIBUS

 

                                                            Miguel Carqueija

 

     A chuvarada caía em inclementes bátegos pesadíssimos, as trovoadas reboavam e eu, correndo na escuridão da madrugada, chapinhando nas poças, tentava desesperadamente alcançar o ônibus que se afastava. Outro homem, altão, desengonçado e com pasta 007, corria também, pouco à minha frente, até que ambos desistimos.

     - E agora? - falei, ofegante, ao desconhecido. - Depois desse, só às quatro da madruga...

     - Sei de um beco aqui perto onde podemos nos abrigar um pouco. Não é bom ficar aqui, pode até cair um fio elétrico!

     Eu concordei e nós corremos e corremos, até o beco escuro e estreito. Mal eu acabava de me encostar à parede nua, ele olhou para mim, com sua cara bexiguenta, e gargalhou:

     - É tão fácil enganar os terráqueos! Lamento, seu tolo, mas a sua hora chegou!

     - Do que você está falando? Que negócio é esse de "terráqueo"?

     - É que eu não sou deste mundo, sou um voluptiano de Dorado! Veja!

     As suas mãos se transformaram em garras e o seu rosto, mudando de forma, adquiriu uma bocarra de jacaré, com dentes agudíssimos, e na cabeça surgiram chifres.

     - Que horror! - exclamei, recuando.

     - Faça suas preces, terráqueo! Nós, voluptianos, possuímos grande apetite!

     Eu sorri.

     - Cometeu um engano, seu trouxa. Eu não sou um terráqueo!

     - Ah! Ah! Essa é boa! O que você é então?

     - Veja você mesmo.

     Comecei a me transformar - é bom ser de uma raça polimorfa! Meus braços viraram tentáculos cheios de ventosas.

     - Um vercingetórix de Epísilon! - disse ele, com terror nos olhos; tentou fugir, mas já era tarde; meus tentáculos seguraram-no firmemente e minha grande boca se abriu:

     - Não importa a fama que vocês têm na Galáxia. O nosso apetite ainda é o maior - comentei ironicamente.

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Comentários (2)

Prezado Miguel Carqueija: Li seu texto "Os que perderam o ônibus", um breve conto, que me chama atenção por um dado que lhe é precioso: o narrador, partindo da realidade referencial, por segundos nos engana e, de repente, somos caídos na armadilha ficcional, onde tudo pode acontecer ou não acontecer. Este efeito narrativo é bom e agrada à curiosidade do leitor. O ponto alto da narrativa se encontra justamente na surpresa dentro da surpresa, ou seja, os personagens, pela metamorfose súbita, imediata, testam suas potencialidades e exibem suas destrezas num jogo de poderes cuja meta provavelmen te seja a vitóçria contra o pretenso opositor, que tamém se arroga de ser mais forte em seus poderes e na capcidade de intimidação. Sendo um conto em primeira pessoa, conduzida pelo narrador, diria, principal, a estória ganha foros de verossimilhança na estrutura global da narrativa e o outro personagem, visto pelo foco do primeiro, adquire estato de convencimento. Quer dizer, ambos os personagens saem da aparente "realidade empírica" e, pelo jogo de espelhos - traço básico da ficcionalidade - nos são devolvidos como realidades insólitas intencionalmente construídas, objeto principal da literatura. Mudando de assunto, fiquei contente por saber que lê meus textos e mais ainda por compartilhar de pontos de vista semelhantes sobre as perplexidades das injustiças deste país. um abraço do Cunha e Silva Filho

Cunha e Silva Filho
postado:
08-07-2010 16:02:57

Divertido!

Alvaro (Pai Nerd)
postado:
08-07-2010 15:07:03

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