Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
ANEXOS DA REALIDADE
Miguel Carqueija
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O guardião do museu de cera

(Miguel Carqueija)

 

Uma incursão nos tenebrosos domínios do terror

O GUARDIÃO DO MUSEU DE CERA


                                                                          


   O casal caminhava, entre outros visitantes, pelos corredores e pelas salas do Museu de Cera, admirando-se ante as estátuas de extraordinário realismo, naquele ambiente de paredes marrons, colunas de mármore e pisos multicoloridos, repletos de desenhos geométricos.
   — Veja só, Telmo — disse Aline, braço dado com o namorado. — Não é admirável? O Cristóvão Colombo...
   — Parece muito, mesmo. O Mao Tse Tung também é fabuloso!
   — Ah, eu gostei do Átila! Aquele chapéu de chifres...
   Foram caminhando. Detiveram-se diante de Santos-Dumont, com seu chapéu característico.
   — Foram grandes artistas que fizeram essas figuras de cera — observou Telmo. — Esse aqui parece tão real...
   — É um dos mais recentes — ouviram uma voz masculina dizer.
   Era um homem de uniforme verde-escuro, olhos estreitos e cabelos negros e curtos, e nariz pontudo.
   — Eu sou o zelador — explicou-se. — Vocês já viram a sala dos projetos?
   — Não, não vimos — respondeu Aline. — O que quer dizer?
   — São as figuras que ainda deverão ser moldadas. Elas estão lá, em simples cartazes. É por aquela porta; venham dar uma olhada.
   O par se entreolhou e acompanhou o guia. Realmente, a sala em questão não continha estátuas. Apenas figuras pintadas em bandeiras suspensas em mastros fixados no chão. Lá estavam Mussolini, Nostradamus, Dom Pedro II, Florence Nightingale, Rasputin, Voltaire, Leonardo Da Vinci e vários outros personagens.
   — Que feio é esse Rasputin! — observou Aline. — Nem naquele desenho da Anastasia...
   — Em compensação — disse o zelador — essa aqui é linda. Venha ver de perto.
   Telmo adiantou-se e reconheceu a figura:
   — Cleópatra!
   As roupas egípcias eram familiares, bem como a víbora em sua mão. Mas logo um detalhe chamou a atenção do rapaz:
   — Aline, parece até você!
   — Eu? Ora...
   — Se me permite, minha jovem — disse o funcionário — parece mesmo. Veja o tipo do nariz, veja os olhos, os cabelos. Na verdade você poderia servir de modelo.
   — Eu, modelo? — Aline riu-se espontaneamente. — Que idéia!
   — São utilizados modelos humanos, sim, para a confecção das estátuas de cera. Mas a nossa administração passa às vezes longo tempo sem providenciar modelos. É por isso que ainda há tantos projetos para completar. E é a Cleópatra que espera há mais tempo...
   — Que acha, querida? Gostaria de servir de modelo à Cleópatra? — Telmo na realidade brincava.
   — Eu, hein? Não dou para isso não. Isso é coisa para modelos profissionais.
   — É por isso que às vezes demora — disse o zelador. — Não querem gastar dinheiro...  por isso às vezes a gente arranja por aqui mesmo, modelos amadores... e a coisa é feita.
   — Entendo — disse Aline. — Mas é como eu disse: não dou para isso.
   Apesar disso Aline fita intensamente a figura de Cleópatra. As cores são bem vivas e o olhar é vívido. É um daqueles quadros que parecem seguir a pessoa com os olhos, acompanhando o movimento; mas Aline nunca viu isso em pinturas feitas em bandeiras. O detalhe afigura-se-lhe estranho, muito estranho.
   Telmo, porém, puxa Aline delicadamente; já se cansou do papo.

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   Mas naquela noite Aline se ergue da cama, em seu apartamento, e veste-se rapidamente, como um autômato, uma expressão vaga nos olhos azuis. Ganhou a rua, sem nem levar dinheiro ou documentos, e caminha agilmente pelas vias desertas. Passou até por assaltantes, mas nenhum deles teve coragem para interceptá-la, pois seu olhar em transe infundia medo. Apesar da distância, consegue chegar ao Museu de Cera em relativamente pouco tempo.
   Sobe rapidamente os degraus, sob a luz dos lampiões ornamentais da fachada. A porta se abre como por encanto e lá está ele, o guardião, com um sorriso de triunfo:
   — Então veio, querida Aline. Entre! Tudo já está preparado!   
   Ela entra e a porta volta a se fechar.

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   E agora caminha aquele rapaz pelas ruas, com sua bela aparência e seus cabelos negros de juventude, mas seu rosto está desfigurado pela tensão e pela angústia. Tudo poderia ser resolvido se houvesse alguém para contar a Telmo que a sua amada desaparecida está no museu de cera, mas agora é uma estátua de cera em cuja placa se pode ler: “Cleópatra – Rainha do Egito”. E ele quebraria o encanto dando-lhe um ósculo de amor, como nos contos de fadas. Mas ninguém lhe diz, como ninguém contou aos amigos e parentes das outras vítimas que antecederam Aline e hoje são outras tantas estátuas de cera, à espera de novos companheiros de infortúnio; e o maligno Guardião vai prosseguindo, impune, a sua obra das trevas. Não ocorre a Telmo, sequer, retornar ao museu, onde a visão de Cleópatra lhe revelaria talvez a presença de Aline. Se alguém contasse a Telmo a verdade, ele certamente correria para libertar sua amada e exterminar o monstro. Mas como não há ninguém para fazê-lo, o pobre rapaz, cada vez mais insano, prossegue, “ad infinitum”, a sua busca desesperada...

 

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