Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 25 de maio de 2017
ANEXOS DA REALIDADE - MIGUEL CARQUEIJA
Miguel Carqueija
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Nos tempos do Pituca

(Miguel Carqueija)


Como o Brasil perdeu e esqueceu uma preciosidade da arte da história em quadrinhos

NOS TEMPOS DO PITUCA


    Quando eu era criança, circulava nas bancas uma revista excelente chamada a “Vida Infantil”, que apresentava matérias diversas e histórias em quadrinhos produzidas no Brasil. Existia também a “Vida Juvenil”. Na primeira apareciam os quadrinhos de “Lourolino e Remendado”, um papagaio e um cágado vivendo aventuras que incluíam um pássaro preto conhecido como Zulu. Tinha Plácido e Muso, Sir Can Can, e o vigarista Cid Bengala. Na Vida Juvenil comparecia o herói C.B.
    Creio, porém, que o mais carismático era o Pituca, da Vida Infantil. Era um macaco que usava roupas — como é comum os bichos antroporfizados — desenhado por certo Joselito, e que vivia aventuras muito dinâmicas. Com traços bastante distintos, Pituca era naturalmente simpático e aliciante; mas era também um sem-vergonha, um malandro de marca maior, que passava a vida tentando se dar bem à custa dos outros. Embora fosse desonesto, parece que granjeara muitos fãs entre a garotada. É verdade que, no fim, acabava sedando mal.
    Infelizmente a revista logo se extinguiu. Joselito ainda prosseguiu em outra publicação infantil da época, o “Sesinho” (do SESI), com a página do Champanhota — um gato pobretão mas metido a grã-fino, que até usava cartola, luvas e bengala. Joselito já não tinha o mesmo espaço; se Pituca estrelava aventuras épicas, Champanhota se limitava a historietas de uma página, simples anedotas.
    Guardei na memória — apenas na falível e desvanescente memória! — duas histórias do Pituca, verdadeiras novelas gráficas publicadas nos almanaques da Vida Infantil. Numa delas, que aparentemente dava sequência a uma aventura que nunca cheguei a ler, o macaco estava querendo localizar um anel mágico que lhe fôra tirado e cuja posse dar-lhe-ia poderes de super. O objeto estava sob a guarda de um rato que morava sozinho numa cabana, no fundo de uma floresta mágica, a uma distância absurda (ao que parece o personagem em questão não cogitava utilizar os poderes da pedra). Motivado a recuperar o anel, Pituca resolve procurar uma bruxa que descobria coisas na bola de cristal. Ela, de fato, consegue dão ao nosso anti-herói a exata localização da cabana — mas, dada a distância, como chegar até lá? Pituca, resolvido a ir, pede emprestada a vassoura da bruxa. Esta se recusa a emprestar, mas pode alugar a um preço astronômico, e pago à vista.
    Mas o Pituca é um sujeito desonesto, não percam isso de vista. Pensando rapidamente, ele pediu para dar uma olhadinha na bola, fingindo ser um principiante de vidência. A bruxa permite. Ele senta, finge que olha e simula o maior susto: “Que horror, dona bruxa! Uma caveira! Venha ver!”
    A vidente se espanta: “Uma caveira? Isso é mau sinal!” Pituca dá o lugar, ela senta e busca ver a tal caveira na bola de cristal. Mas aí o Pituca agarrou a vassoura e PLAFT! Na cabeça da pobre bruxa. Ela cai desmaiada e o pelintra, já montado na vassoura e prestes a sair voando, ainda debocha da sua vítima: “Até  logo, dona bruxa. Fique sabendo que a gente só vê a caveira dos outros.”   
    Aqui parece que há uma inconsistência, à qual o desenhista não deu atenção: poderia uma vassoura mágica ser “voada” por alguém que não a própria feiticeira dona, ou alguém com poderes equivalentes? Mas deixemos de lado esse detalhe; prossigamos.
    Pituca voa, voa e voa, atravessando grandes distâncias geográficas, e afinal aterrissa na floresta encantada. Muitas coisas ainda acontecerão — não esqueçam, é uma novela gráfica — mas no fim ele é castigado.
    Recordo uma outra história deliciosa, onde o Pituca se junta a um grupo de irmãos esquilos, cada um dos quais possuia um poder paranormal. Um deles, por exemplo, tinha vento num dos ouvidos, o que o forçava a mantê-lo sempre fechado. Eles encontram um coelho que tinha uma “perna de sete léguas”, capaz de esticar tanto que servia como meio de transporte. O coelho esticava a perna, erguia-se assim no ar e ia para onde quisesse — ao pousar, simplesmente recolhia a perna, que voltava ao tamanho normal.
    Pituca acompanha o coelho e os esquilos numa aventura medievalesca, ajudando um rei coelho e sua princesa coelha — da qual, é lógico, o coelho de perna mágica se enamora — contra as maquinações perversas de um conde lobo — (bicho bem emblemático de maldade, coitado). Como a HQ coloca um vilão realmente malvado, por algum tempo o Pituca posa de bonzinho; mas após a derrota do “cara mau” o macaco mostra mais uma vez o seu caráter tortuoso e tenta fugir levando o tesouro real.
    É pena que os bons tempos da Vida Infantil acabaram de há muito, e para sempre. Que fim levou o Joselito? E a sua obra magnífica, perdeu-se no vácuo?                     

 

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Comentários (4)

Oi Miguel Parabéns e obrigado pelas gratas lembranças.Ganhava sempre do meu saudoso pai as Revistas Alterosa , Almanaque do Tico -Tico e Vida Infantil. Certo Natal (1956?)ganhei uma Edição Especial com várias historias de Plácido e Muso (urso e raposa),Lourolino e Remendado, Pituca e um que vc não citou o Tilim que era um ratinho bem legal.Voce poderia escrever histórias infantis pois descreve bem e quem descreve, tb ESCREVE.Pense sobre isso! Um abraço Leo

Leovegildo Monteiro
postado:
28-02-2015 18:40:49

Olá Miguel, gostei muito de ler sua crônica. Achei-a quando fui procurar alguma coisa, justamente, sobre Plácido e Muso. No Natal um dos presentes que pedia a meus pais era o almanaque da Vida Infantil ou da Vida Juvenil. Uma historinha que nunca esqueci foi a um personagem que roubava trens por um desvio secreto dentro de uma montanha; quando ele é preso descobre-se que ele tinha um ´´trauma`` de infância: não deixavam ele brincar com o trenzinho que ele havia ganho. Como compensação, na prisão. ele vira o condutor de um trem de carregar pedras. Também lembro do Xuxá, citado pelo José Frajtag.E também fui leitor do Sesinho. Abraço a todos!

waldir
postado:
15-12-2014 15:18:00

Que saudade daqueles personagens. Lembro da bruxa Zonha que deixava apavorado! Eu era fã nos meus 7 anos de duas revistinhas semanais: Uma era o Xuxá, e a outra O Pequeno Xerife!

JOSÉ FRAJTAG
postado:
11-07-2013 09:53:33

Eu assim como você também viajava nestas histórias, lembro do Lourolino e Remendado,quadrinhos em preto e branco.Tinha também um indiozinho em um bote,que para cortar o cabelo usava uma tigela como modelo . Eu ganhava todas as semanas um livretinho de capa xadrez chamado historinhas semanais. Tenho saudades. legal ter encontrado este teu texto, Um abraço Rosangela

rosangela
postado:
04-12-2012 22:24:03

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