Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
ANEXOS DA REALIDADE
Miguel Carqueija
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Lógicas bizarras da ficção

(Miguel Carqueija)

A lógica pode seguir estranhos caminhos

LÓGICAS BIZARRAS DA FICÇÃO

 

"Depois que meus filhos receberam presentes duas vezes no mesmo Natal deixaram de acreditar em Papai Noel. Agora quem acredita sou eu."

(Leon Eliachar, "O homem ao zero")


    Existe um delicioso filme de Roger Corman, “Frankenstein unbound” (isto é, “Frankenstein libertado”), de 1990, onde se pode ver um diálogo que pode ser classificado como tragicômico, entre o Dr. Victor Frankenstein e a criatura:
    — Você matou meu irmão! Por que você matou o meu irmão?
    — Ele era fácil de esmagar...
    Desde que vi esse filme, compreendi porque é que o governo faz essas coisas com o povo...
    Lógicas assim abstrusas e por vezes hilariantes encontram-se com freqüência nas histórias em quadrinhos, em filmes, desenhos animados e textos de ficção. A lógica do Pateta, por exemplo, merece ser mencionada. Lembro de uma HQ onde ele e o Mickey bancavam os caça-fantasmas. Para sua surpresa, o autor de um livro que pretendia desmistificar os fantasmas telefonou pedindo ajuda, pois estava com um fantasma em casa. Ao se dirigirem de carro à residência do novo cliente, Mickey exprimiu seu espanto, pois afinal o sujeito havia escrito um livro para provar que fantasmas não existiam. Ao que o Pateta replicou, despreocupado: “Ora, talvez ele não tenha lido o próprio livro!”
    Noutra história o Pateta encontrava-se na banheira, tomando banho de imersão, esfregando-se com escova, quando o Mickey tocou a campainha. Comentário do Pateta: “Preciso mandar consertar essa campainha! Ela sempre toca quando estou no banho!”
     Também os Irmãos Metralha, vilões assumidos e ridículos, aparecem com lógicas hilárias. Lembro de uma HQ ambientada no tempo das barcaças do Mississipi, em que eles são corridos a tiro de uma cidade. Um deles se queixa de que por toda a parte estão os cartazes de “procura-se” com a foto do bando. E outro replica: “Por que somos tão procurados, se ninguém nos quer?”
    Muito engraçada é a cena — numa velha história em que Patinhas pesquisa a Manoa do Cariri — em que os Metralhas, tendo tentado se apresentar como cantores numa estação de rádio, são postos para fora a pontapés pelo diretor e, caídos na calçada, um deles reclama: “Mas que mal-educado! Não sabe que somos perigosos?”
    Há também uma HQ anacrônica, de origem italiana, passada no Império Romano. A feiticeira Maga Patalógica, como sempre, está ambicionando a moeda nº 1 do Tio Patinhas e, para tanto, une-se aos Irmãos Metralha que, nessa época, são bárbaros vindos da Grécia, de uma região chamada Beócia. Maga explica seu requintado plano ao chefe dos Metralhas e, ao fim, pergunta: “Entendeu?” A resposta do Metralha é antológica: “Se eu entendi? Maga, você está falando com um bárbaro beócio!”
        E tem a lógica muito sem-vergonha do Zé Colméia. Como se sabe, o seu companheiro, o ursinho Catatau, é facilmente influenciável. Os dois estão sempre roubando as cestas de piquenique dos excursionistas que vão ao Parque Jellstone. Certa vez o Catatau questionou:
    — Zé Colméia, por que nós não nos alimentamos de frutas e raízes, como faziam os nossos antepassados?
    E a resposta cínica do Zé Colméia:
    — Pois é! Os nossos antepassados comiam frutas e raízes, e veja só o que aconteceu com eles: morreram todos!
    No desenho “O mundo fantástico de Billy”, que anos atrás passava na televisão, um garoto vivia interagindo o mundo real com a fantasia. Certa vez ele discutiu com um monstro alienígena, que ameaçou: “Eu vou destruir a Terra!” O garoto replicou, incontinenti: “Você não pode destruir a Terra! Eu ainda nem tomei o café da manhã!”  
     Será que depois poderia?
    Mas voltemos ao gozadíssimo universo do Mickey e do Pateta. Lembro de uma curiosa série, “O sumiço do Pateta”. Contada em vários capítulos publicados em velhos números da revista “O Pato Donald”. O Pateta (Goofy, no original) encontrava-se desaparecido e ninguém sabia dele. Preocupados, Mickey e seu sobrinho Chiquinho saem numa jornada à procura do amigo, visitando seus obscuros parentes. Acabam descobrindo um ermitão chamado Patico, tio do Pateta, que vivia numa casa isolada no alto de um morro e não gostava de estranhos. Para serem recebidos, Mickey e Chiquinho tiveram de exibir uma bandeira branca.
        Sabendo que eles eram amigos do Pateta, o eremita os recebeu e até serviu-lhes uma bebida horrorosa. Mas, infelizmente, ele também não tinha notícias do sobrinho. Quando os visitantes já iam embora, Patico pediu-lhes que comprassem umas balas de goma, pois era a única coisa civilizada que ele ainda apreciava. “Esperem, vou lhes dar o dinheiro”.
    Ao receberem a cédula, porém, Chiquinho e Mickey levam um susto: a efígie era do próprio Patico. “Esse dinheiro é falso”, protestaram. O ermitão mostrou-se indignado: “Como falso? Pois se eu mesmo fiz!” Desnecessário é dizer que os nossos amigos acabaram tendo de comprar as tais balas de goma... com seu próprio dinheiro, é claro.
    Estes são alguns exemplos das lógicas extravagantes que com freqüência deparamos na chamada “cultura pop”.

(Rio de Janeiro, 1º de julho a 4 de setembro de 2011)

 

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