Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
ANEXOS DA REALIDADE
Miguel Carqueija
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Deus e Charles Chaplin

(Miguel Carqueija)

Qual seria o pensamento do cineasta? O que pensar do cartaz dos ateus?

DEUS E CHARLES CHAPLIN



    Uma entidade ateísta brasileira anda divulgando um cartaz que mostra, lado a lado, fotos de Chaplin e Hitler, com as legendas dizendo que o primeiro não crê em Deus, e o segundo crê. O recado é óbvio: não é preciso ser crente para ser bom, e um ateu pode ser muito melhor que um crente.
    Não discuto que um ateu possa ser perfeitamente honrado e honesto. A mensagem, porém, parece-me equívoca. Vejamos: Hitler era realmente crente? Ele falava em Deus, mas sua postura religiosa é pouco conhecida. Sabe-se que os cristãos foram perseguidos na Alemanha nazista (veja-se o caso do Padre Maximiliano Kolbe). Talvez o teísmo de Hitler fosse jogada de “marketing” — apresentar-se como um escolhido de Deus, um messias — já que seu comportamento não era compatível pelo menos com o Cristianismo. Aliás o nazismo estimulou o paganismo, como se nota nos correios sentimentais da imprensa nazista.
    E Chaplin — era ateu? Nem sempre é fácil saber a exata posição de uma personalidade em assuntos sobre os quais ela não costuma se manifestar. Mas há alguns indícios que parecem indicar crenças religiosas no ator-cineasta.
    A obra de Chaplin, de forma implícita, já transmite humanismo cristão. Mas há alguma coisa explícita. Num clássico de 1921, “O garoto” (The kid), podemos assistir uma cena tocante: Carlitos incentivando o garotinho (que ele encontrara como um bebê abandonado, e adotara informalmente) a rezar as orações da noite.
    Em “O grande ditador” (“The great dictator”, 1940) o protagonista, um barbeiro judeu (também interpretado por Chaplin e que guarda traços do vagabundo), declara no célebre discurso final: “No décimo sétimo capítulo do Evangelho de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem — não de um só homem ou grupo de homens, mas de todos os homens.” Noutro trecho, em tom de crítica, observa: “nossos conhecimentos tornaram-nos céticos” (isto é, descrentes).
    Por aí se vê que há motivos para crer que Chaplin cultivava crenças religiosas.
             

 

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