Dilson Lages Monteiro Sábado, 29 de abril de 2017
ANEXOS DA REALIDADE - MIGUEL CARQUEIJA
Miguel Carqueija
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A Filha da Floresta, de Thales Andrade

A Filha da Floresta, de Thales Andrade

 A FILHA DA FLORESTA DE THALES ANDRADE

Miguel Carqueija

 

Resenha do livro infanto-juvenil “A filha da floresta”, de Thales C. De Andrade. Edições Melhoramentos, São Paulo-SP, sem data, 10ª edição. Série Encanto e Verdade n° 1. Ilustrações de Dino Ippolito. Subtitulo: “contra a devastação das matas”.

 

“A filha da floresta” é uma relíquia da minha infância que ainda permanece comigo, e razoavelmente bem conservada, se levarmos em conta os quase 60 anos passados. Com a letra cursiva de minha mãe, um recorte de caderno permanece no pequeno volume, com a informação:

 

“Prêmio conferido pela Sra. Diretora da Escola Cruzeiro, na 4ª série, Turma 21 em 1959, ao aluno Miguel Francisco da Cruz Carqueija”.

 

            E era algo muito especial, pois há tempos mamãe me comprava a coleção “Encanto e Verdade” exclusiva do autor Thales Andrade mas faltava o primeiro volume, que já não se encontrava nas livrarias e papelarias. E a diretora concedeu o volume que se encontrava na biblioteca do colégio, veio para mim com carimbo e tudo.

            Hoje eu sei que “A filha da floresta” teve a sua primeira edição em 1919, antes portanto das obras de Monteiro Lobato, e diz-se que vem a ser o primeiro livro infantil da literatura brasileira. É até de estranhar um tal atraso, isto é, que ao longo do século XIX e até 1919 ninguém mais tenha se preocupado em escrever para crianças, aqui em nosso país.

            Thales Andrade possuía uma avançada visão ecológica num tempo em que essa palavra nem era usada. O subtítulo “contra a devastação das matas” demonstra isso. É um libelo muito bem colocado para a instrução de crianças. Gira a história em torno de um menino chamado Sílvio, que mora com os pais Eunice e Samuel no “Recanto Tranquilo” em região campestre. Um dia Sílvio trava conhecimento com a fada que guarda a fonte na floresta. Ela se declara a “filha da floresta” e conta ao menino como se dá o ciclo das águas:

            Saio do seio da terra, como vê, mas venho do céu, venho das Nuvens. São as Nuvens que me alimentam.

            Eis aí porque as fontes não param de jorrar. Eis aí uma parte do meu segredo.”

            (...) Venho do céu, como disse, mas sou muito perseguida. O Sol me odeia. Os Ventos são meus inimigos.

            Quando as nuvens querem descer das alturas para matar a minha sede, sopram os Ventos furiosos e as Nuvens são arrastadas para o mar.

            Mas os Ventos também dormem.

            Pois, quando eles dormem em suas furnas e as Nuvens se desfazem em chuvas e descem à superfície da terra, para me alimentar, vem o Sol e bebe-as depressa, gulosamente.

            De que maneira eu posso viver, então?

            É que eu tenho mãe. Minha mãe é a Floresta. A Floresta me protege. Pelas folhas do seu arvoredo se evapora tanta água, tanta, até que o ar se umedeça e assim atraia as Nuvens e as deixe tão pesadas que os Ventos não as possam arrastar. (...)

            Em paga da proteção que a Floresta me dispensa, passo a vida dando de beber a todos — aos homens, ao gado, aos passarinhos, às flores perfumosas, às hortaliças e às árvores boas que dão fruto.

            Mas os homens são ingratos. Os homens destroem a Floresta. E a destruição da Floresta é a minha morte.”

            O que mais se poderia acrescentar? Na sequência do livrinho o autor mostra claramente o que ocorre quando as matas são derrubadas pelo corte e pela queimada das árvores. Secam-se as fontes e não chove, e vem a seca, o gado morre, os seres humanos se vêem num beco sem saída.

            Faz quanto tempo não se reedita este valioso livro? Ele é mais atual do que nunca, e dói ver que as nossas autoridades e a mídia, diante da agora chamada crise hídrica, só ficam esperando que chova, e esquecem de tratar da reposição das florestas, do reflorestamento! É incrível, ninguém fala nisso (fora vozes isoladas pela rede, como a de Norma Aparecida Silveira Moraes no Recanto das Letras) quando é mais necessário que nunca!

 

Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 2017.

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