Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
A COMPANHIA DOS POETAS
Amélia Pais
Tamanho da letra A +A

Cesário Verde



Noitada

Lembras-te tu do sábado passado,
Do passeio que demos, devagar, 
Entre um saudoso gás amarelado
E as carícias leitosas do luar? 

Bem me lembro das altas ruazinhas, 
Que ambos nós percorremos de mãos dadas;
Às janelas palravam as vizinhas;
Tinham lívidas luzes as fachadas. 

Não me esqueço das cousas que disseste,
Ante um pesado templo com recortes, 
E os cemitérios ricos, e o cipreste 
Que vive de gorduras e de mortes! 

Nós saíramos próximo ao sol-posto, 
Mas seguíamos cheios de demoras;
Não me esqueço ainda o meu desgosto
Nem o sino rachado que deu horas. 

Tenho ainda gravado no sentido,

Porque tu caminhavas com prazer,
Cara rapada, gordo e presumido,
O padre que parou para te ver. 


Como uma mitra a cúpula da igreja

Cobria parte do ventoso largo;
E essa boca viçosa de cereja 
Torcia risos com sabor amargo. 

A Lua dava trémulas brancuras,
Eu ia cada vez mais magoado;
Vi um jardim com árvores escuras,
Como uma jaula todo gradeado! 

E para te seguir entrei contigo 
Num pátio velho que era dum canteiro, 
E onde, talvez, se faça inda o jazigo
Em que eu irei apodrecer primeiro!

Eu sinto ainda a flor da tua pele, 
Tua luva, teu véu, o que tu és! 
Não sei que tentação é que te impele 
Os pequeninos e cansados pés. 

Sei que em tudo atentavas, tudo vias! 
Eu por mim tinha pena dos marçanos,
Como ratos, nas gordas mercearias,
Encafurnados por imensos anos!

Tu sorrias de tudo: os carvoeiros, 

Que aparecem ao fundo dumas minas, 
E à crua luz os pálidos barbeiros 
Com óleos e maneiras femininas! 

Fins de semana! Que miséria em bando! 
O povo folga, estúpido e grisalho! 
E os artistas de ofício iam passando,
Com as férias, ralados de trabalho. 

O quadro interior, dum que à candeia,

Ensina a filha a ler, meteu-me dó!
Gosto mais do plebeu que cambaleia, 
Do bêbado feliz que fala só! 

De súbito, na volta de uma esquina,
Sob um bico de gás que abria em leque, 
Vimos um militar, de barretina 
E galões marciais de pechisbeque. 

E enquanto ele falava ao seu namoro,

Que morava num prédio de azulejo,
Nos nossos lábios retiniu sonoro
Um vigoroso e formidável beijo! 


E assim ao meu capricho abandonada,

Errámos por travessias, por vielas,
E passámos por pé duma tapada
E um palácio real com sentinelas. 

E eu que busco a moderna e fina arte,
Sobre a umbrosa calçada sepulcral,
Tive a rude intenção de violentar-te 
Imbecilmente, como um animal! 

Mas ao rumor dos ramos e da aragem,

Como longínquos bosques muito ermos,
Tu querias no meio da folhagem
Um ninho enorme para nós vivermos. 

E ao passo que eu te ouvia abstractamente,
Ó grande pomba tépida que arrulha,
Vinham batendo o macadame fremente,
As patadas sonoras da patrulha. 

E através a imortal cidadezinha,
Nós fomos ter às portas, às barreiras,
Em que uma negra multidão se apinha 
De tecelões, de fumos, de caldeiras.

Mas a noite dormente e esbranquiçada
Era uma esteira lúcida de amor;
Ó jovial senhora perfumada, 
Ó terrível criança! Que esplendor! 

E ali começaria o meu desterro!

Lodoso o rio, e glacial, corria;
Sentámo-nos, os dois, num novo aterro
Na muralha dos cais de cantaria. 

Nunca mais amarei, já que não amas, 
E é preciso, decerto, que me deixes!
Toda a maré luzida como escamas, 
Como alguidar de prateados peixes. 

E como é necessário que eu me afoite

A perder-me de ti por quem existo,
Eu fui passar ao campo aquela noite
E andei léguas a pé, pensando nisto. 

E tu que não serás somente minha, 
Às carícias leitosas do luar,
Recolheste-te pálida e sozinha,
À gaiola do teu terceiro andar!

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

06.02.2012 - Antero de Quental

01.02.2012 - James Joyce

29.01.2012 - António Carlos Cortez

22.01.2012 - Emily Brontë

09.01.2012 - Lawrence Durrel

02.01.2012 - José Régio

27.12.2011 - Carlos Alberto Machado

14.12.2011 - Manuel Gusmão

12.12.2011 - Odysseus Elytis

10.12.2011 - Agostinho da Silva

06.12.2011 - Bénédicte Houart

29.11.2011 - João Miguel Fernandes Jorge

25.11.2011 - Humberto Helder

19.11.2011 - Antonio Gamoneda

13.11.2011 - Alejandra Pizarnik

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos

Twitter

Carregando...
Últimas matérias

10.02.2012 - Planeta-Casa de América anuncia seus finalistas

Planeta-Casa de América anuncia seus finalistas

10.02.2012 - Traduções de Poe

Quando organizei minha antologia de 2010, Contos Obscuros de Edgar Allan Poe, minha idéia era publicar em português alguns contos que, apesar de muito bons, eram menos conhecidos

10.02.2012 - Menos ais, mais vivas e satisfações, leitor!

Os hedonistas geralmente são alvos da crítica pelo apetite ao prazer

10.02.2012 - O contador de histórias

Nunca se soube se ele sabia ler e escrever.

10.02.2012 - Cidades Maranhenses recebem novas bibliotecas

Cidades Maranhenses recebem novas bibliotecas

10.02.2012 - Tentando entender o Brasil e o mundo

Mais um componente desfavorável desponta

10.02.2012 - A morte de Maurice Girodias, em 1990

O dono da famosa editora Olympia Press, de Paris, sofreu um enfarte quando estava sendo entrevistado, ao vivo, numa emissora de rádio francesa

10.02.2012 - Lucilene Gomes Lima: FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS

Estudo comparativo dos romances A selva, Beiradão e O amante das amazonas

10.02.2012 - cronicasdesabado - nosso noticiário etc.

cronicasdesabado - nosso noticiário etc.

09.02.2012 - Antônio de Pádua é eleito titular da Cadeira 48 da ALRESC

Antônio de Pádua é eleito titular da Cadeira 48 da ALRESC

09.02.2012 - Jennifer Egan na Flip

Jennifer Egan na Flip

09.02.2012 - Lucilene Gomes Lima: FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS

Escritores brasileiros abordaram amplamente os ciclos econômicos através de sua prosa.

08.02.2012 - O amante das amazonas: o ciclo sob o olhar de um analista-autor

Dissertação de mestrado: Estudo comparativo dos romances “A selva” (FERREIRA DE CASTRO), “Beiradão” (ÁLVARO MAIA) e “O amante das amazonas” (ROGEL SAMUEL),

08.02.2012 - Manual da criança Caiçara

Manual da criança Caiçara

08.02.2012 - Em memória do cantor e compositor Wando

A arte que resiste às estritas classificações de gêneros de produtos de cultura: [1] tradicional-popular (artesanal, folclórico); [2] erudito (erudito-clássico e erudito-vanguardista); e [3] pop (anticlássico, de ampla audiência)

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (segundo piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br