Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
A BATALHA DO PODER
Miguel Carqueija
Tamanho da letra A +A

Epílogo: O futuro começou

(Miguel Carqueija)

Termina aqui a dramática história de Faisão Verde e sua luta pela liberdade.

 

EPÍLOGO

O FUTURO CHEGOU


        Lorne tinha acabado de assinar um decreto que criava a Rede de Restaurantes Populares (que serviriam refeições pela metade do preço habitual, como recurso de emergência para atenuar o terrível custo de vida) quando a lâmpada de seu videofone acendeu, acompanhada pelo apito característico. Lorne teclou e a ligação se completou. Apareceu a figura conhecida de Hermelinda:
        — Presidente, o Ministro da Defesa e sua esposa já chegaram e pedem para ser recebidos.
       — Claro, claro. Mande-os entrar sem demora.
       Logo a porta se abriu e Riní, de mãos dadas com Lena, se aproximou. Ambos sorriam. Lorne levantou-se para cumprimentá-los calorosamente e em seguida indicou-lhes poltronas em frente à escrivaninha.
        — Bem, bem. O que é que os amigos vão tomar?
        — Um mate gelado estaria bem para mim. E você?
        — No dia em que eu pedir o mesmo que ela, Lorne, pode me demitir. Um xerez dos bons, se puder...
        — É claro que pode. Vou até lhe acompanhar.
        Depois que o robô (agora, só eram admitidos robôs construídos segundo as leis de Asimov) trouxe as bebidas e se retirou, Lorne iniciou a conversa:
        — Às vezes, sabem, eu ainda sinto a falta de tantos amigos que morreram na guerra... como o velho e bom Tousand, por exemplo.
        Lena, recostada na poltrona, observou:
        — Diga logo quase todos, Lorne. Como há tempos eu perdi meu pai nas mãos daquela gente, já estava de certa forma vacinada...
        — Lena, talvez seja melhor cicatrizarmos todas as nossas feridas... eu também perdi tanta gente... — observou Riní.
        — É verdade que eles também pagaram caro... — acrescentou Lorne.
        Realmente, a cúpula do governo iconoclasta morrera com o desabamento do ominoso Triângulo. Saturnino, Iantok, Helena, Marte, até o terrível Ipuwer haviam perecido. Todos os corpos puderam ser identificados. Lena e seus amigos escaparam, já que o aposento de controle achava-se super-energizado e isolado, tendo permanecido incólume após a espatifação do castelo, de modo que a grande perda foi para a Arqueologia. Foram necessárias horas para que uma tinta de normalidade retornasse a Gloria, mas a queda do Triângulo resultara em que as forças regulares, na sua maior parte, tinham aderido à rebelião, com o apoio da população sublevada e o que restou das brigadas rebeldes, dizimadas em 90%.
        A terrível Arma do Poder fôra aniquilada e, graças a Deus, ninguém sabia como reconstruí-la.
        Lena, heroína nacional, era agora uma pacata escritora, além de dona de casa. Pretendia ter muitos filhos.
        — Às vezes eu penso — disse Lorne — o Faisão Verde encerrou mesmo sua carreira para sempre?
      — Creio que, se ele voltasse, eu ganharia meus primeiros cabelos brancos — objetou Riní.
        LENA (rindo) — Faltando um motivo, eu realmente não vejo por que voltar... quem sabe um dia? Rita às vezes diz que sente saudades daquele tempo.
        Lorne comentou:
        — Estou lendo seu último livro. É bom saber que você faz sucesso nesse ideal... que é tão difícil. Mas é pena que não tenha acompanhado Rita...
        A amiga de Lena era a pessoa mais nova do gabinete. Era Ministra da Infância. O governo do Presidente Lorne Hurne (eleito oito meses atrás, por sufrágio universal) dedicava atenção especial às crianças, tendo proibido rigorosamente o abortamento, além de possibilitar, após tantos anos de proibição, o ensino do catecismo. Já não existiam padres, pastores e rabinos secretos.
        Lena respondeu à observação de Lorne:
        — Eu sempre quis manter minha independência, desde a rebelião. Por isso preferi continuar de fora... assim, um dia, meu caro Lorne, no futuro, se as forças do mal voltarem a dominar o nosso país...
        Fez uma pausa de pontuação dramática e concluiu, grandiosa:
        — O Faisão Verde retornará.



FIM

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

03.11.2011 - Epílogo: O futuro começou

26.10.2011 - Capítulo 12: Armageddon

19.10.2011 - Capítulo 11: O último recurso

13.10.2011 - Capítulo 10: A hora da verdade

05.10.2011 - Capítulo especial: E foi aqui que vocês entraram

26.09.2011 - Capítulo 9: A arma total

21.09.2011 - Capítulo 8: A máscara do Faisão

14.09.2011 - Capítulo 7: A rebelião evolui

08.09.2011 - Capítulo 6: Lorne Hurne

31.08.2011 - Capítulo 5: Lena

24.08.2011 - Capítulo 4: Iantok

17.08.2011 - Capítulo 3: As filhas dos cientistas nem sempre são personagens inúteis.

10.08.2011 - Capítulo 2: O Chanceler

03.08.2011 - Capítulo 1: O trem

29.07.2011 - Introdução: Apocalipse

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online
Últimas matérias

17.05.2012 - O VELHO CHALÉ DE JOSÉ DE FREITAS (PARTE 1)

..............................................................................................

17.05.2012 - Algumas faculdades europeias e estadunidenses de Jornalismo

Na Europa, uma excelente faculdade de Jornalismo foi construída pela Universidade Autônoma de Madri, conveniada com o jornal espanhol El País

17.05.2012 - NANA, um tratado sobre as relações humanas

Uma complexa e extensa novela gráfica japonesa

17.05.2012 - Terra do Gado

A história e as histórias que reuniu e redimensionou são, ao tempo em que lançam novas luzes sobre a identidade do Piauí, principalmente, um reflexo do ideal de projetar entendimento mais preciso das marcas da “piauiensidade”

17.05.2012 - Uma luta de Sísifo

Durante boa parte do meu temo

16.05.2012 - A CRIATURA - PARTE 2

De olhos bem abertos ela fitava o teto. Imagens dispersas deslizavam umas sobre as outras, enroscando-se numa massa caótica de energia desperdiçada. Os ponteiros do relógio, alheios ao seu sofrimento, moviam-se silenciosamente.

16.05.2012 - Família lança livro inédito do desembargador e contista Magalhães da Costa

Família lança livro inédito do desembargador e contista Magalhães da Costa

15.05.2012 - No país das CPIs

Tempos atrás já houve

15.05.2012 - A mulher vital

A história da Narrativa (cinema, literatura, etc.) é cheia de arquétipos e estereótipos

15.05.2012 - Inobstante, face a, frente a e outras locuções

Por sugestão de M. P. Kern, de Pinhalzinho/SC, vamos tratar hoje do “uso de face a e inobstante, expressões muito usadas no meio jurídico”. O pedido sem dúvida decorre do fato de algumas pessoas condenarem a locução face a

15.05.2012 - O melhor trecho do novo livro de Rogel Samuel

A escolha de um trecho melhor é idiossincrática - e por isso irrelevante -, mas o novo ensaio rogeliano é crítico-filosófico - e ultrapassa a mera crítica literária

14.05.2012 - Vi uma coisa medonha no céu

Mergulhemos um pouco no mundo sombrio e tenebroso criado por H.P. Lovecraft: os horrores do Necronomicon

14.05.2012 - Abril de 2012: UNESCO anuncia proteção aos destroços do Titanic

Em águas internacionais, a 4.000 m de profundidade, nenhum país pode reivindicar a jurisdição exclusiva do local

13.05.2012 - Tradução de um texto de Raymonde Norman*

Sobre minha fronte

13.05.2012 - Três fábulas de La Fontaine

(1) O leão e o rato; (2) A raposa e a cegonha; e (3) O lobo e o cordeiro

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br