Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 21 de maio de 2013
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Assim Fala Paulo Machado

ASSIM FALA PAULO MACHADO

 

                                                Dílson Lages Monteiro*

 

        “Que é que faz de uma mensagem uma obra de arte?” A clássica pergunta, (re)formulada oportunamente por Jakobson, ao examinar a relação entre lingüística e poética, ajusta-se harmoniosamente ao desejo de se verificar a essência de uma obra poética. Assim, diante de qualquer livro de poesia, a indagação afirma-se imprescindível. Nesse sentido, o que torna “Tá pronto, seu lobo?”, de Paulo Machado, recentemente editado pela editora Corisco, uma das valorosas obras da Literatura Brasileira de Expressão Piauiense?

        O exame da poética de Machado, por menos global que se queira, convoca à análise de como sentimento e imagem se fundem na construção de uma voz própria. O sentimento evocado pelo percurso da memória do poeta alicerça-se sobremaneira na nostalgia, aprofundada nas imagens que evocam a tranqüilidade perdida em face do crescimento de Teresina: “No cruzamento da barroso com a senador pacheco/há um sinal que não raro/ encrenca desafiando a rotina”. Alicerça-se, sobremaneira, nas transformações do espaço urbano, sob o ponto de vista temporal expresso – agora, frio, artificial, cruel: “Na praça pedro segundo a mudança notável/é a da posição da estátua que parece sorrir”.

        A ligação sentimento-imagem sustenta-se também na demarcação temporal estabelecida. O contexto da ditadura militar impõe-se marcante em diversos poemas e/ou circunstâncias: na referência à udn (post card 57/77), na sutil ironia ao patriotismo e à República (relatório), na tortura ao subversivo (arquivo), na vigília das baionetas (invenção)...

        Sentimento e imagem, pois, unem-se a partir da obsessão do autor em  se projetar espacial e temporalmente. Projeção evidente desde o título de feição metalingüística – tá pronto, seu lobo? configura-se como metáfora à censura, à opressão, à ditadura, bem como ao tempo corrosivo a modificar a arquitetura humana e paisagística de Teresina.

       

 

 

 

 

        Curioso notar que este título, ademais, soa paradoxal. Na brincadeira infantil, desafia-se o lobo e, posteriormente, foge-se dele. No momento histórico em que se situa o sujeito-enunciador, há , idem, o

desafio, ao qual se segue a censura ( a criança vencida pelo lobo): “Adão andou nas mãos dos paisanos/ e foi encontrado na praça da liberdade/como um mamulengo esquecido detrás do palco:/olhos abertos, boca cerrada, músculos petrificados/sangue coagulado nas narinas”.

        Nesse particular, o vate repete uma das lições do semiólogo Roland Barthes:  para combater o falso moralismo e a hipocrisia, o bom humor. Por  isso,  o título  do  livro  conota  ironia    leve,  de  um  refinamento

apreciável. Ironia similar à manifesta nos versos: “meu avô não gozou das honras e direitos/inerentes ao posto, apesar de ter prestado/ a solene promessa de bem servir à pátria”.

        A metalinguagem se faz intensa ao longo de toda a obra, numa clara demonstração da consciência poética de Paulo. O diálogo com a própria linguagem surge nos títulos como concisão, revisão, relatório e nos corpus de vários poemas, dos quais sobressai o rio. Desse modo, a aparente simplicidade de sua poesia prosaica fica patente através da sutileza de imagens líricas, construídas pela exploração freqüente da metapoesia.

        O que torna a poética de Paulo Machado digna de apreciação é principalmente a convergência, num processo de diálogo entre o tempo e o coletivo, de três elementos:  memória, preocupação estética e história.

       

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